Do SoundCloud à prisão e ao Lollapalooza: quem é Dominic Fike, cantor que estreia no Brasil em 2027

Dominic Fike

O Lollapalooza Brasil anunciou, na última quinta, 8, o lineup de sua 15ª edição, marcada para os dias 19, 20 e 21 de março de 2027, no Autódromo de Interlagos, em São Paulo. Entre as atrações principais estão Travis Scott, Charli XCX, The Killers, David Guetta e Queens of the Stone Age.

O primeiro nome do cartaz, entre as 74 atrações confirmadas, é Dominic Fike, protagonista de uma das trajetórias mais improváveis da música pop norte-americana recente. O cantor se apresenta no Brasil pela primeira vez.

Para parte do público brasileiro, Fike é o nome que surgiu no TikTok no começo de 2026, quando “Babydoll” — lançada em 2018 — viralizou e entrou na Billboard Hot 100 oito anos depois. Para outra parte, é Elliot, de Euphoria (2019), o rapaz de olhos fundos que namorou Zendaya dentro e fora das telas e protagonizou uma das cenas mais comentadas da série. Quem acompanha a cena independente e alternativa norte-americana conhece Fike pelas músicas gravadas em prisão domiciliar, que abriram caminho para um contrato de US$ 4 milhões com uma das maiores gravadoras do mundo. As três histórias pertencem ao mesmo artista.

Com o terceiro álbum de estúdio previsto para outubro e uma turnê em andamento, Fike se prepara para chegar a Interlagos em uma fase de amadurecimento da carreira. Para entender essa trajetória, é preciso voltar ao começo.

Briga com um policial na Flórida

Dominic David Fike nasceu em 30 de dezembro de 1995, em Naples, cidade do litoral sudoeste da Flórida. De ascendência afro-americana, filipina e haitiana, cresceu sem a presença constante dos pais — a mãe foi presa por tráfico de drogas, e o pai se afastou cedo — e encontrou na música um ponto de apoio. Aos dez anos, já tocava violão. Na adolescência, começou a publicar músicas no SoundCloud, misturando rap, pop punk e R&B em um som que não cabia em um único gênero. Suas referências incluíam Jack Johnson, Blink-182 e Red Hot Chili Peppers — uma combinação que ajuda a explicar a singularidade de sua música.

Em 2016, uma briga mudou o rumo de sua vida. Fike interveio ao acreditar que um policial havia sacado uma arma contra seu irmão mais novo, Alex, e acabou preso por agressão a um agente da lei. A pena foi prisão domiciliar, período em que gravou as músicas que mudariam sua carreira. Em 2017, descumpriu as condições da pena e foi enviado à cadeia do condado de Collier, na Flórida. “Se não tivesse sido preso, eu ainda estaria bêbado no sofá de alguém”, disse em entrevistas posteriores.

A disputa milionária e ‘3 Nights’

Enquanto Fike estava atrás das grades, as músicas que havia gravado em prisão domiciliar e publicado de forma independente no SoundCloud começaram a circular e chamaram a atenção de várias gravadoras. Uma disputa de ofertas se formou em torno de um cantor que sequer tinha acesso ao celular. Seu empresário adiou as negociações, reconhecendo nas faixas inacabadas o que chamou de “bom poder de negociação”. Segundo relatos, Fike se preparava para reuniões com executivos ainda na prisão, ensaiando apresentações com seu companheiro de cela.

Em agosto de 2018, depois de ter sido solto em abril, assinou com a Columbia Records por um valor estimado entre US$ 3 milhões e US$ 4 milhões — uma quantia expressiva para um artista com tão poucos lançamentos disponíveis ao público. Uma de suas primeiras decisões foi contratar um advogado para a mãe, que enfrentava acusações relacionadas a drogas. Em 16 de outubro daquele ano, a Columbia lançou oficialmente a EP Don’t Forget About Me, Demos (2018), com oito faixas gravadas em prisão domiciliar. Entre elas estava “3 Nights”, faixa que chegaria às dez primeiras posições das paradas de vários países. A música combinava pop, rock e rap com a naturalidade de quem não se preocupava em escolher uma dessas categorias.

Parceria inusitada

Em março de 2021, Paul McCartney anunciou McCartney III Imagined, álbum de regravações e remixes de McCartney III (2020). Com curadoria do próprio ex-Beatle, o projeto reuniu nomes como St. Vincent, Phoebe Bridgers e Beck. A primeira faixa lançada foi a versão de Dominic Fike para “The Kiss of Venus”, uma delicada balada acústica que ele transformou, nas palavras do material de divulgação, em “uma tour de force de R&B retrofuturista”. Fike alterou trechos da letra, deslocando o foco das imagens astronômicas para um diálogo sobre as divisões provocadas pelo noticiário.

Em entrevista na época, Fike contou que McCartney havia ligado pessoalmente para conversar sobre a gravação de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967). Revelou também que o segundo álbum que comprou na vida foi Greatest Hits (1995), do Blink-182.

Carreira como ator

Em 2022, Dominic Fike alcançou um novo público ao interpretar Elliot na segunda temporada de Euphoria (2019), série da HBO estrelada por Zendaya. Sua atuação chamou a atenção pela profundidade, especialmente em uma cena ao piano que se tornou uma das mais comentadas da temporada. “Elliot’s Song”, gravada em parceria com Zendaya, entrou nas dez primeiras posições da Billboard Hot 100 e apresentou sua música a espectadores que não o conheciam pelo SoundCloud nem pelo pop punk da Flórida. Em 2026, ele voltou a interpretar Elliot na terceira temporada da série.

Discografia

Entre a prisão e o Lollapalooza 2027, Dominic Fike construiu uma discografia variada em formato, mas consistente em identidade. Seu primeiro álbum de estúdio, What Could Possibly Go Wrong (2020), entrou nas 50 primeiras posições das paradas dos Estados Unidos e da Austrália, com faixas como “Chicken Tenders” e “Politics & Violence”. Naquele setembro, o cantor também fez uma série de apresentações dentro do jogo Fortnite.

Sunburn (2023), seu segundo álbum, ampliou essa projeção: chegou ao terceiro lugar nas paradas alternativas norte-americanas, trouxe “Mona Lisa”, certificada como disco de ouro, e foi acompanhado pela turnê mundial Don’t Stare at the Sun World Tour, que o levou a festivais ao redor do mundo. Em 2024, a EP 14 Minutes reuniu material que havia ficado de fora de projetos anteriores. Em agosto de 2025, a mixtape Rocket deu continuidade a uma fase de lançamentos que privilegiava a espontaneidade em vez de grandes campanhas comerciais.

Nesse período, Fike também investiu em colaborações. Participou de “Love Hangover”, faixa de Jennie, do BLACKPINK, incluída em Ruby (2025), que entrou na Billboard Hot 100. Formou a dupla Geezer com Kevin Abstract, do Brockhampton, e lançou músicas pelo projeto Blush em 2025. Em 2026, abriu algumas apresentações da turnê Deadbeat Tour, do Tame Impala.

Sucesso tardio de ‘Babydoll’

Em fevereiro de 2026, “Babydoll” ganhou uma segunda vida. Gravada em 2017 e lançada na EP de 2018, a faixa permaneceu por anos entre as favoritas dos primeiros fãs antes de viralizar no TikTok como se fosse uma novidade. A Rolling Stone norte-americana descreveu o fenômeno como “o maior sucesso viral da sua carreira com uma música de oito anos atrás”. A canção entrou na Billboard Hot 100, alcançou paradas de países onde Fike ainda não havia emplacado um sucesso e levou uma nova geração a EP de estreia. Um impulso tardio e inesperado, capaz de renovar o alcance de seu catálogo.

Novo álbum anunciado

O terceiro álbum de estúdio, How to Quit Smoking, chega em outubro de 2026 pela Columbia Records com uma proposta incomum. Fike o definiu como um “álbum vivo”: escrito, gravado e produzido durante a turnê Comedy Tragedy Parody, com canções moldadas pelas cidades por onde passava. O processo foi documentado em tempo real no perfil @separatestreet, criado no Instagram exclusivamente para o projeto.

A faixa “Wallflower”, de pegada funk, atmosfera despojada e vocais em camadas, deu o tom de um disco que privilegia a espontaneidade e a intimidade, em vez do acabamento de estúdio. Em entrevista à Billboard Philippines, Fike comparou o álbum à “última temporada de Game of Thrones”.

Lollapalooza 2027

Em março de 2027, Dominic Fike se apresenta pela primeira vez no Lollapalooza Brasil, com um disco novo e um público que reúne tanto quem o descobriu pelo TikTok quanto quem o acompanha desde os tempos de SoundCloud.

A edição de 15 anos do festival também traz Travis Scott, Charli XCX, The Killers, David Guetta, Queens of the Stone Age, The Neighbourhood, Fontaines D.C., Criolo e Nação Zumbi, em um lineup com mais de 70 atrações. Os ingressos estão à venda pela Ticketmaster.

+++LEIA MAIS: 7 atrações além das principais para se ligar no Lollapalooza Brasil 2027

+++LEIA MAIS: Fique de olho nas lendas na disputa por ‘Melhor Álbum de Rock’ no Grammy 2027

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Publicado por: Kadu Soares (@kadusoares__)

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