A presença das Bets nos festivais brasileiros de 2024 a 2026

Se você acompanhou qualquer partida de futebol nos últimos anos – e especialmente agora, em época de Copa do Mundo, tem sido quase impossível não acompanhar -, percebeu que as casas de apostas online, as famosas “Bets”, dominam as camisas dos times e os intervalos comerciais. Mas esse fenômeno não parou nas quatro linhas: essas marcas migraram para o território da música ao vivo, buscando o engajamento e a conexão apaixonada que a música e o entretenimento ao vivo proporcionam.

Em nossa análise de mercado, percebemos que, embora o número de marcas de apostas represente uma fatia proporcionalmente pequena (oscilando entre 0,9 e 2,25% do número total de marcas patrocinadoras durante os últimos anos), o impacto de seus investimentos é desproporcional, ocupando mais espaços cobiçados dos eventos “Superstar” (com mais de 80 mil frequentadores) que outros setores do mercado.

A Lógica do Mainstream: o foco das plataformas de apostas

Uma das descobertas mais reveladoras dos dados coletados entre 2024 e 2026 é o desinteresse quase absoluto das Bets pelos nichos. Enquanto o mercado de patrocínio tradicional muitas vezes busca comunidades específicas e hiper-segmentadas, as casas de apostas jogam no campo do volume.

Entre 2024 e 2025, a maioria das Bets esteve presente em festivais da categoria Multigênero (50% em 2024 e 40,7% em 2025) ou gêneros populares como Samba/Pagode, Forró/Piseiro e Sertanejo. Elas miram no público que consome de tudo um pouco, pois ali o potencial de conversão de novos usuários é estatisticamente superior.

Essa sede por visibilidade em meios de massa é explicada por especialistas do mercado. Conversando com grandes produtoras de eventos do Brasil, a presença das bets é definida pelo viés do planejamento estratégico: “Bets [investem] porque eles estão querendo entrar no mercado e precisam converter novos clientes. Eles buscam o futebol, óbvio, e também buscam a música, porque o festival é uma plataforma de 50, 100 mil pessoas onde você pode se comunicar diretamente com aquela massa de pessoas, um público que pode se interessar pelo produto”, explicou um diretor de uma das maiores empresas do ramo no país, que preferiu não ser identificado na matéria.

Outra questão levantada pelas produtoras é como imagens captadas em festivais facilitam a produção de conteúdo em vídeo para a mídia tradicional e a mídia online. Contando com milhares de pessoas num mesmo local, a realização de takes amplos com público massivo e também a gravação de ações individualizadas para vídeos curtos são mais econômicas, evitando gastos maiores com produção publicitária.

Em 2025: a regulamentação e a pulverização

Se 2024 foi o ano da explosão em volume de bets patrocinando eventos, com 14 marcas diferentes espalhadas por 33 festivais, o ano de 2025 serviu como um filtro. Houve uma queda de 28,5% no número de festivais com presença de Bets.

Esse recuo não indica necessariamente um desinteresse pelo setor, mas sim uma possível adaptação. Uma das hipóteses por trás do recuo seria a Portaria Federal que instituiu que apenas empresas com licença emitida e domínio “.bet.br” poderiam operar legalmente a partir de janeiro de 2025, regulamentação que inevitavelmente diminuiu o número de players presentes no mercado.

Nesse cenário, vimos também uma pulverização regional, com destaque para novos nomes como 7K Bet e bet.bet, que juntas lideraram o volume de patrocínios em 2025. Algumas dessas marcas se concentraram no Nordeste e em outras regiões fora do eixo Rio-SP, demonstrando como o foco em mercados diversificados faz mais sentido no investimento por parte das novas empresas de apostas online: competir no mercado nacional com as bets multinacionais ou as “gigantes” beira o impossível, por isso quem chega como novato prefere focar em regiões específicas.

Seguindo essa tendência de regionalização, em 2025 Pernambuco foi o estado com mais festivais patrocinados por bets, concentrando oito festivais que contaram com o segmento presente. Mantendo o foco em públicos multigênero e estilos populares, as marcas focaram em festivais de Samba, Pagode e nos grandes eventos de Verão.

2026: uma nova explosão

Os dados preliminares do primeiro semestre de 2026 indicam que a “bolha” não estourou, mas sim se ampliou. A penetração proporcional das Bets nos festivais saltou para 10,1% em 2026, um recorde nos últimos três anos. O grande destaque deste período é o retorno da Superbet, ausente em 2025, que reassumiu o topo do ranking patrocinando vitrines colossais como o Rock in Rio e o Village Superbet.

Outra mudança qualitativa importante é a entrada do Sertanejo no radar das apostas. Após a ascensão do Samba/Pagode no ano anterior, o gênero mais popular do Brasil começou a ser “carimbado” pelas Bets em 2026, com três grandes festivais já mapeados apenas nos primeiros seis meses.

É necessário notar, porém, que estamos em ano de Copa do Mundo, o que torna 2026 um ano de maior foco para as bets no investimento em experiências ao vivo. E alguns desses festivais – principalmente aqueles ligados a “watch parties” de futebol – talvez não tenham sua manutenção garantida nos próximos anos.

É possível que tenhamos descoberto um novo grande parceiro para festivais, mas com presença muito mais sazonal do que constante?

O Dilema Ético: entre os limites financeiros e o posicionamento do festival

Antes de falar sobre o dinheiro que entra, vale olhar para o dinheiro que sai. Em 2024, um levantamento do Banco Central estimou que brasileiros transferiram cerca de R$ 20,8 bilhões via Pix para empresas de apostas em apenas um mês, agosto. No mesmo recorte, beneficiários do Bolsa Família teriam enviado aproximadamente R$ 3 bilhões para Bets.

É um dado que muda o tom da conversa: não estamos falando só de uma nova categoria de patrocínio com caixa forte, mas de um mercado que também avança sobre a renda familiar, consumo básico e pessoas em situação de maior vulnerabilidade.

O debate sobre a aceitação desse capital divide o mercado. De um lado, produtores de áreas periféricas do país que enfrentam altos custos de logística ou a escassez de editais veem no dinheiro das Bets uma possibilidade para contas que raramente fecham apenas com bilheteria. Entretanto, há uma resistência ética crescente baseada no posicionamento de marca e na proteção da comunidade.

Em entrevista para o Mapa dos Festivais, Potyra Lavor, CEO da IDW e do Afropunk Brasil, apresentou um contraponto contundente:

“Você não vai ver o Afropunk possivelmente com nenhuma bet. Não é uma marca que o Afropunk vai topar fazer. Por mais que ele possa até deixar de acontecer uma edição, não vai acontecer com o dinheiro de uma bet, porque é algo que fere completamente o princípio e o posicionamento do festival”.

Essa tensão entre a necessidade vital de patrocínio (visto que apenas 3% dos festivais de 2025 foram realizados sem investimento de parceiros externos) e o filtro de valores é o que definirá a longevidade dos festivais nos próximos anos. As bets ganham espaço, mas definem com muito cuidado onde pisar, pois têm consciência de que até mesmo parte do público as olha com desconfiança. Para o produtor, o desafio é equilibrar o caixa sem alienar uma audiência que, como mostram nossas pesquisas, valoriza a “verdade” e a autenticidade acima de qualquer ativação.

Este artigo foi baseado em dados do Panorama Mapa dos Festivais, edições 2024, 2025 e apuração preliminar da edição 2026, que será lançada no próximo ano. Para ter acesso ao cruzamento completo de dados por estado, gêneros, marcas e mais insights, além de entrevistas exclusivas, adquira a versão completa do Panorama Mapa dos Festivais 2025 com acesso também ao novo dashboard interativo.

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