As Listas T&NB amadureceram. E agora?

Após três edições do Panorama das Listas T&NB em festivais, realizado por Iná Odara Cholodoski e Macaia Ferro, o debate deixa de ser apenas sobre ampliar o acesso e passa a discutir como transformar essa política em uma experiência segura, acolhedora e efetiva para pessoas trans e não binárias.

Recapitulando: em 2024, os pesquisadores lançaram o primeiro relatório sobre as Listas Trans & Não-Binárias. Na época, o Mapa dos Festivais explicou a importância dessa iniciativa e o porquê os festivais e eventos deveriam adotar. Em 2025, a pesquisa evoluiu, os números cresceram e mostramos como essa política de inclusão já estava transformando os festivais brasileiros.

Agora, em 2026, a terceira edição do panorama revela que a discussão entrou em uma nova fase. Se antes o desafio era incentivar mais festivais a criarem Listas T&NB, hoje o foco também está em aprimorar essa política: discutir critérios de seleção, combater fraudes, ampliar seu alcance e garantir que pessoas trans e não binárias encontrem, além do acesso, um ambiente de acolhimento e pertencimento. A seguir, reunimos os principais destaques da pesquisa.

As Listas T&NB cresceram! 

A terceira edição do Panorama confirma a consolidação das Listas T&NB como uma importante política de acesso à cultura. Em 2025, foram distribuídos mais de 6.880 ingressos e cortesias destinados à população trans e não binária, considerando os dados de 31 dos 36 festivais que adotaram a iniciativa.

Entre os eventos que mais disponibilizaram ingressos estão Castro (SP), com 1.000 cortesias, Psica (PA), com 760, Mamba Negra (SP), com 582, Sensacional (MG), com 500, Coquetel Molotov (PE), com 400, e Presença (RJ), com 399.

Outro dado que evidencia o impacto da iniciativa é que 69,1% das pessoas contempladas nunca haviam participado daqueles festivais, indicando que as listas vêm alcançando públicos que antes encontravam barreiras para acessar esses eventos

Da expansão ao aprimoramento 

O crescimento das Listas T&NB também trouxe novos desafios. Se, nos primeiros anos, a prioridade era ampliar o número de festivais participantes, agora a pesquisa aponta para a necessidade de qualificar essa política e torná-la cada vez mais efetiva.

Essa mudança aparece ao longo de toda a terceira edição do Panorama. Mais do que contabilizar ingressos distribuídos, o relatório passa a discutir critérios de seleção, formas de inscrição, estratégias de comunicação, acolhimento e maneiras de ampliar o alcance das listas. Em outras palavras, o debate deixa de ser apenas sobre criar Listas T&NB e passa a discutir como fazê-las funcionar melhor.

O que faz uma Lista T&NB funcionar? 

Segundo os pesquisadores, a Lista T&NB não se resume à distribuição de ingressos. A forma como ela é comunicada, divulgada, organizada e executada influencia diretamente sua efetividade e o impacto que pode gerar.

Embora o formulário de inscrição ainda seja o modelo mais comum, o Panorama destaca iniciativas que buscam aproximar esse processo da comunidade. O Sarará, por exemplo, criou um perfil exclusivo para gerenciar sua Lista T, administrado por uma pessoa trans da equipe. Já festivais como Mamba Negra e Madá recebem inscrições por e-mail ou mensagem direta nas redes sociais, enquanto ARVO, Sensacional e Nômade combinam formulários públicos com vagas destinadas a instituições e casas de acolhimento parceiras.

A pesquisa também mostra que boas práticas vão além do momento da inscrição. Comunicação acessível, critérios transparentes, equipes preparadas e parcerias com coletivos locais contribuem para que a experiência seja mais acolhedora e para que o acesso se transforme, de fato, em participação.

Os desafios ao implementar as Listas T&NB

Apesar dos avanços, a pesquisa mostra que as Listas T&NB ainda estão longe de fazer parte da realidade da maioria dos festivais brasileiros.

Segundo o Panorama Mapa dos Festivais 2025, 366 festivais foram realizados no ano passado, sendo 82 gratuitos. Desse total, apenas 36 eventos contavam com Listas T&NB, o equivalente a cerca de 10% dos festivais mapeados. Em 2024, esse percentual era inferior a 5%, o que demonstra um avanço significativo, mas também evidencia que ainda existe um longo caminho para ampliar essa política. Considerando apenas os festivais pagos, as listas estão presentes em 11,9% dos eventos.

Outro desafio apontado pelo relatório é compreender as Listas T&NB como parte de uma política de inclusão mais ampla. O levantamento mostra que seis festivais que adotaram a iniciativa não contrataram nenhum artista trans ou travesti, enquanto 14 eventos tiveram até três artistas trans, travestis ou não bináries em seus lineups. Os dados reforçam que ampliar o acesso do público também passa por fortalecer a presença dessa população nos palcos, nas equipes e nos espaços de decisão.

Para onde essa política caminha?

Depois de três edições do Panorama, fica evidente que as Listas T&NB amadureceram. Hoje, elas já demonstram resultados concretos na ampliação do acesso à cultura, alcançando milhares de pessoas trans e não binárias e contribuindo para reduzir uma das principais barreiras de entrada aos festivais.

Ao mesmo tempo, a pesquisa mostra que seu potencial ainda está longe de ser plenamente explorado. Se apenas cerca de um em cada dez festivais brasileiros adota essa política, os próximos anos representam uma oportunidade para ampliar seu alcance e fortalecer sua implementação.

É por isso que o relatório propõe compreender as Listas T&NB como uma tecnologia social de acesso cultural. Além de ser uma política de distribuição de ingressos, as listas representam uma ferramenta capaz de enfrentar desigualdades históricas e ampliar o direito à cultura. O amadurecimento das Listas T&NB, portanto, não marca um ponto de chegada, mas o início de uma nova etapa: a de transformar iniciativas pontuais em práticas cada vez mais presentes no circuito de festivais brasileiros.

Quer ler a pesquisa completa? Acesse o release aqui.

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