
Na primeira vez que veio ao Brasil, em 2008, o Interpol parecia estar no fim da linha. Seu terceiro álbum de estúdio, Our Love to Admire (2007), teve a recepção mais branda da carreira do grupo até ali e tensões internas levaram à saída do baixista Carlos Dengler em 2010, meses antes do lançamento do disco seguinte, Interpol (2010).
Entretanto, a banda continuou em frente. E nesta sexta-feira, 28, lança seu oitavo álbum, This Mirror Weighs a Ton.
Em entrevista à Rolling Stone Brasil, o guitarrista Daniel Kessler se abriu quanto ao processo desse novo trabalho, que incluiu duas mudanças cruciais. A primeira foi um novo produtor Andrew Wyatt – conhecido por Liam Gallagher, Miley Cyrus e Mark Ronson –, um conhecido de longa data do Interpol e, embora haja sempre riscos de trazer alguém próximo para o estúdio, tudo correu bem.
“As coisas podem dar super certo ou pode ser que vocês não tenham a mesma visão artística em relação à direção que querem dar à música. Mas foi um verdadeiro prazer. Parecia que ele era como um quinto membro enquanto estávamos gravando. Ele fez todos esses teclados e orquestrações incríveis, todas essas coisas que eu achei que seria ótimo trazer de volta e incorporar a um disco essencial, e simplesmente se encaixaram perfeitamente, sem nada forçado.”
Outra mudança entre The Mirror Weighs a Ton e seu predecessor, The Other Side of Make-Believe (2022), é a presença de um baixista de ofício no estúdio. Desde a saída de Dengler em 2010, o instrumento era gravado pelo vocalista e guitarrista Paul Banks. Agora, Brad Truax, parte da formação ao vivo do Interpol desde 2011, foi efetivado como integrante oficial.
Daniel destacou o quão bom foi trabalhar com o baixista no estúdio, após anos dividindo palcos. As contribuições de Truax são evidentes em canções como a solene “Iron City”, cujo instrumento confere um balanço ao arranjo que dá uma nova dimensão às composições.
Kessler afirmou que a banda não passou tempo demais burilando o material no espaço de ensaio, mas foi possível chegar no estúdio com as músicas bem encaminhadas. Coube a Wyatt apenas auxiliar os integrantes a traduzir o espaço das composições, gravadas ao vivo, para as gravações finais. Isso significou arranjos luxuosos de teclado e uma mixagem expansiva feita por Dave Fridmann (Flaming Lips, Tame Impala, Spoon).
“Tudo pareceu muito natural. Acho que isso é uma grande parte do mérito. Nos divertimos muito compondo. Quando chegamos ao estúdio, todas as músicas já estavam ótimas. Já tínhamos praticamente tudo pronto, e Andrew ajudou a levar as músicas para outro nível. É como se ele tivesse dado a elas uma sensação mais tridimensional com todos os teclados, orquestrações e tudo o mais. Todos os discos sempre vão ter um pouco de desafio, porque são gravados ao vivo, mas foi muito divertido.”
Estreia no Brasil
O guitarrista até aproveitou para revelar algo relacionado à passagem mais recente do Interpol pelo Brasil, quando a banda tocou no Lollapalooza Brasil 2026. Àquela altura, The Mirror Weighs a Ton estava finalizado há alguns meses – desde outubro de 2025 – e o grupo resolveu aproveitar o show de aquecimento na Audio, dia 19 de março, para estrear uma faixa inédita do álbum, “See Out Loud”.
A recepção calorosa dos fãs brasileiros à canção nova o fez lhe sentir como nos primórdios da carreira.
“Quando você faz algo assim — quando toca uma música pela primeira vez em qualquer lugar —, sempre dá um friozinho na barriga, faz você se sentir como nos primeiros dias da banda, começando do zero e tal. Mas me lembro de sentir esse calor e acolhimento do público. Foi ótimo termos conseguido estrear lá.”
Ao falar da relação do Interpol com o país, o músico ficou até emocionado. A banda já fez sete passagens pelo Brasil desde 2008 — algo que para ele, parecia tão fora das possibilidades no começo de sua trajetória a ponto de lhe tornar ainda mais grato:
“É difícil acreditar que você vai visitar o Brasil e, muito menos, fazer shows lá, então foi realmente algo especial. O fato de só termos conseguido fazer isso no nosso terceiro álbum tornou tudo ainda mais significativo para nós. Agora temos essa relação linda e longa com o Brasil, tendo estado lá em todos os ciclos de nossos álbuns, às vezes mais de uma vez. Então, nesse sentido, uma das coisas maravilhosas que às vezes acompanham o lançamento de discos e a vida de uma banda em turnê é poder ir a lugares que você sempre quis visitar e se conectar com bandas incríveis, algumas das mais apaixonadas do mundo.”
Lembranças
O último dia 19 viu Turn On The Bright Lights (2002), álbum de estreia do Interpol, completar 24 anos. Curiosamente, era a idade que Paul Banks, o caçula da banda, tinha quando o disco saiu originalmente. Entretanto, dentre todos os integrantes, Daniel Kessler sempre foi o motor por trás do grupo.
Foi ele quem juntou Banks, Carlos Dengler e o baterista Sam Fogarino. Além disso, ajudou a moldar a sonoridade característica do conjunto e usou suas conexões na indústria, formadas enquanto era funcionário da gravadora independente Domino, para conseguir um contrato de gravação.
Perguntado sobre sua perspectiva quanto à trajetória do Interpol, Kessler reflete:
“A gente não imagina essas coisas na vida. É uma luta constante conseguir que algumas pessoas compareçam aos seus shows e coisas do tipo. Você não tem motivos para acreditar que haverá pessoas interessadas no seu primeiro disco quando você finalmente o lançar, mas o fato de ele ter tocado algumas pessoas até hoje, incluindo pessoas que nem tinham nascido quando o disco foi lançado, é excepcional. Isso significa muito para mim. É uma grande honra, mas também é algo muito bonito e surpreendente nesse sentido.”
This Mirror Weighs a Ton, inclusive, carrega um pouco da essência de Turn On The Bright Lights, pois ambos têm uma sonoridade grandiosa e calorosa. Ao refletir sobre tais características, Daniel aponta:
“Acho que nunca temos parâmetros definidos. Simplesmente tentamos fazer justiça à música e seguir o caminho que ela parece querer trilhar, então às vezes é assim que ela quer ser. Por exemplo, músicas como ‘This Mirror Weighs a Ton’ ou ‘NYC’ simplesmente querem ser grandiosas nesse sentido e prosperam nesse tipo de ambiente, mas você só percebe isso quando já está no meio do processo, então não é um requisito. Em geral, quando começamos a gravar, não entramos em muitos detalhes sobre o que queremos fazer. Seguimos o fluxo.”
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O post Interpol: ‘temos uma relação linda e longa com o Brasil’ apareceu primeiro em Rolling Stone Brasil.
Publicado por: Pedro Hollanda (@phollanda21)






