A caridade de Dolly Parton não conhecia limites

Dolly Parton

Como começar a lamentar a morte de Dolly Parton?
Na terça-feira, 25, o sobrinho de Parton, Bryan Seaver, anunciou que o ícone global de 80 anos havia falecido, desencadeando imediatamente uma onda de homenagens de fãs, amigos e das vozes musicais que a consideram uma inspiração fundamental.
Desde o início de sua carreira na indústria musical na década de 1960, Parton usou suas raízes humildes e sua personalidade vibrante para redefinir o que o sucesso no mundo da música country poderia significar. Com sucessos como “9 to 5“, “Jolene” e “I Will Always Love You“, Parton consolidou seu lugar na história da música com um charme natural, brilhando em todos os lugares: em discos, na televisão, nos palcos e, finalmente, nas telonas. Ela foi incluída no Hall da Fama da Música Country em 1999 e no Hall da Fama do Rock and Roll em 2022. Mas o legado que Parton deixa vai muito além de seu talento musical.
A nativa do leste do Tennessee foi uma aliada de longa data de grupos marginalizados e uma filantropa dedicada, que construiu uma reputação por usar sua vasta riqueza para retribuir sempre que possível. Os projetos que a apaixonavam eram variados, desde alfabetização e aumento das taxas de conclusão do ensino médio em seu estado natal até a conservação da águia-careca e doações para o desenvolvimento da vacina contra a Covid-19 da Moderna.
No entanto, a maior prova da generosidade de Parton são as histórias que as pessoas jamais saberão: os cheques que ela repassava discretamente, os uniformes escolares que comprava secretamente, as flores que entregava, os aluguéis pagos e os estudos financiados. A cantora era tão conhecida por ajudar os outros que é difícil refutar histórias falsas, porque até mesmo atos extraordinários de bondade soam como algo que Parton faria.
Em 2022, ela recebeu a Medalha Carnegie de Filantropia. “Eu simplesmente dou de coração”, disse Parton. “Nunca sei o que vou fazer ou por que vou fazer. Apenas vejo uma necessidade e, se puder supri-la, farei.”
A Rolling Stone conversou com as organizações mais próximas de Parton para discutir as contribuições da cantora, seu legado filantrópico e seu coração generoso.

“Meu povo” — O amor de Dolly pelo Condado de Sevier

A fama pode mudar as pessoas. Mas para os moradores do Condado de Sevier, no Tennessee, onde Parton cresceu, a fama da cantora só enriqueceu a comunidade.

Para o ex-historiador do Condado de Sevier, Carroll McMahan, de 76 anos, suas memórias da superestrela começam durante seu período no Ensino Médio do Condado de Sevier. Ele era calouro quando Parton estava no último ano e contou à Rolling Stone que sua filantropia para com o condado começou muito antes de ela se tornar um nome conhecido. “Mesmo quando tinha muito pouco, ela sempre foi uma pessoa generosa”, disse ele. “Ela tinha uma determinação como ninguém que eu já conheci.”

“Somos uma área turística desde a criação do Parque Nacional das Grandes Montanhas Fumegantes, em 1934. Mas o maior catalisador para a indústria do turismo desde a criação do parque foi a inauguração do Dollywood [em 1986]”, acrescenta. “As oportunidades, os empregos que gerou — isso fez toda a diferença.”

Em 1988, Parton criou o Buddy Sistem no ensino médio, colocando os alunos em duplas e oferecendo bolsas de estudo de US$ 500 (cerca de R$ 2.600) para cada dupla que se formasse junta. Em 1993, o programa foi expandido para outras escolas de ensino médio da região.

Em 2016, Parton criou o fundo “My People” após um incêndio fatal em Gatlinburg, Tennessee, que naquele ano matou 14 pessoas e destruiu cerca de 2.500 estruturas. De acordo com uma estimativa do prefeito do Condado de Sevier, Larry Waters, Parton doou cerca de US$ 14 milhões (mais de R$ 72 milhões) para ajudar as vítimas de desastres naturais no Tennessee. Ela também doou US$ 3 milhões (aproximadamente R$ 15.594 milhões) ao condado para ajudar na expansão e reforma do centro para idosos.
“Ela estava sempre fazendo o possível para garantir que o povo das montanhas tivesse o máximo de oportunidades possível, seja em termos de emprego, seja promovendo a região para que eles tivessem a chance de melhorar de vida do ponto de vista econômico”, diz Waters. “Eu a conhecia desde que me lembro. Era um prazer estar perto dela, e dava para perceber que ela amava as pessoas. Ela representava tudo aquilo que considero as melhores qualidades do povo das montanhas.”

Uma campanha constante de arrecadação de fundos para cuidados médicos

Ao longo de sua vida, Parton foi uma apoiadora constante de hospitais e centros médicos necessitados, especialmente no Tennessee. Em 2007, ela organizou um show beneficente para o novo hospital de Sevierville. No LeConte Medical Center, sua contribuição foi reconhecida com a criação do Dolly Parton Center for Women’s Services (Centro Dolly Parton para Serviços Femininos, em tradução livre)..
Em 2017, Parton doou US$ 1 milhão (cerca de R$ 5.200 milhões) para o Hospital Infantil Monroe Carell Jr., no Centro Médico da Universidade Vanderbilt, visitando frequentemente as crianças e suas famílias. Durante a pandemia, ela também doou US$ 1 milhão para ajudar a financiar a pesquisa da vacina contra a Covid-19 da Moderna.
“Dolly era um ícone global e uma amiga da Vanderbilt. Sua incrível generosidade, particularmente em relação à pesquisa sobre câncer pediátrico e doenças infecciosas, teve um impacto transformador no atendimento e tratamento de pacientes”, disse Jeff Balser, presidente e CEO da Vanderbilt Health e reitor da Faculdade de Medicina da Universidade Vanderbilt, em um comunicado compartilhado com a Rolling Stone. “Não é exagero dizer que Dolly ajudou a salvar inúmeras vidas por meio de sua filantropia.”
Um exemplo disso? Em 2026, ela lançou uma versão beneficente de sua música “Light of a Clear Blue Morning”, com a participação de Lainey Wilson, Miley Cyrus, Queen Latifah e Reba McEntire. Toda a renda foi destinada à pesquisa do câncer pediátrico na Universidade Vanderbilt.

O sonho da Imagination Library

Uma das causas pelas quais Parton se dedicou mais foi a alfabetização em nível nacional. Era um trabalho que lhe era muito caro, já que seu próprio pai era analfabeto. “Antes de falecer, meu pai me disse que a Imagination Library era provavelmente a coisa mais importante que eu já tinha feito”, disse Parton certa vez. “Ele era o homem mais inteligente que já conheci, mas sei no meu coração que sua incapacidade de ler provavelmente o impediu de realizar todos os seus sonhos. Inspirar crianças a amar a leitura tornou-se minha missão.”

A Imagination Library (ou Biblioteca da Imaginação, em português) de Parton começou pequena, com a ideia de enviar um livro por mês pelo correio para incentivar a leitura. O programa foi lançado no Condado de Sevier em 1995. A cada ano, cresceu, oferecendo a mais crianças uma coleção de livros gratuitos. Atualmente, 3,2 milhões de crianças nos EUA estão inscritas na Imagination Library de Parton. Segundo o programa, uma em cada seis crianças com menos de cinco anos recebe um livro pelo correio todos os meses. O programa já distribuiu mais de 325 milhões de livros e espera distribuir 40 milhões de livros somente em 2026.

“Quando conheci Dolly, fiquei muito curioso para saber o que motivava essa mulher. Um dia, observando-a, me dei conta: era gratidão”, diz Jeff Conyers, presidente da Imagination Library. “Ela era tão grata por ver todos aqueles sonhos se tornarem realidade que acordava e trabalhava arduamente todos os dias para retribuir. Ela era tão feliz quanto podia ser e tentava fazer com que todos ao seu redor também fossem felizes.”

Um lugar para descansar na Salvation Army

Parton costumava contar a história de uma vez em que estava em Nashville sem dinheiro para voltar para casa no Natal. Ela se lembrou das palavras de um tio querido, que lhe disse: “Se você estiver se sentindo sozinha, vá ao Exército da Salvação”. Parton se ofereceu como voluntária para servir comida naquele dia e se tornou uma apoiadora vitalícia da organização sem fins lucrativos.
Dale Bannon, Secretário Nacional de Relações Comunitárias e Desenvolvimento do Exército da Salvação, contou à Rolling Stone que a falecida cantora country fez diversas doações privadas para a organização ao longo de sua vida. Em 2023, ela doou seu tempo para uma apresentação no show do intervalo do jogo de Ação de Graças do Dallas Cowboys, um evento de lançamento da Campanha da Panela Vermelha do Exército da Salvação. (Parton vestiu o icônico uniforme de líder de torcida do Dallas Cowboys.) Além da apresentação, ela doou US$ 1 milhão naquele ano, fundos que foram destinados a programas nacionais de alimentação que alimentaram “milhares de pessoas”. Ela repetiu a doação — mais US$ 1 milhão — no ano seguinte.
“Dolly era alguém que representava o melhor em cada um de nós. Ela era uma humanitária incrível que tinha um coração voltado para os outros. Nós a considerávamos uma amiga que compartilhava nossa vocação de amar e servir ao próximo”, diz Bannon. “A maneira como ela apoiou organizações sem fins lucrativos com seu tempo, sua influência e suas finanças foi uma prova de um desejo compartilhado de colocar a fé em ação. Nossa esperança é que sua generosidade continue viva. A maior homenagem que as pessoas podem prestar é dar continuidade ao exemplo de vida que Dolly deixou.”

O apoio de Parton à comunidade queer

Parton foi uma defensora ferrenha da comunidade LGBTQ+, reafirmando sua crença na inclusão em uma época em que a música country era menos receptiva. Sua indicação ao Oscar em 2006 foi pela canção “Travelin’ Thru“, do premiado filme TransAmerica.

“Dolly Parton não era apenas a ‘Rainha da Música Country’, mas também a rainha da inclusão e da filantropia”, disse Sarah Kate Ellis, presidente e CEO da GLAAD, em um comunicado. “O espírito acolhedor, a bondade e a alegria de viver de Parton ressoaram profundamente com a comunidade LGBTQ+, consolidando-a como um ícone queer global cuja arte sempre acolheu os excluídos, independentemente dos riscos. Toda a carreira de Parton foi construída sobre o amor e o respeito por todos, e seu apoio inabalável é um legado que perdurará para sempre.”

Voando alto com Parton

Embora a maioria das pessoas esteja familiarizada com o foco de Parton em alfabetização e assistência social, um aspecto menos conhecido de seu trabalho filantrópico foi a reabilitação de águias-carecas. O aviário de Dollywood é um dos maiores abrigos para águias-carecas “não reintroduzíveis” nos EUA. Quando não estão trabalhando no show Wings of America do parque temático, as aves recebem cuidados e tratamento nas instalações.
Em 2003, ela recebeu o prêmio Partnership do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA por seus esforços de conservação. De acordo com Lori Moore, CEO da American Eagle Foundation, muitos no setor atribuem os esforços pioneiros e visíveis de Parton à retirada da águia-careca da lista de espécies ameaçadas de extinção.
“Ter a voz dela por trás disso — e também a de Challenger, que foi a primeira águia a voar em estádios da NFL — eles eram a voz. Eles foram o impacto que se espalhou e trouxe a situação crítica das águias à notoriedade”, diz Moore. “Enquanto eu entrava no parque temático esta manhã, a música que tocava no alto-falante era ‘Get to Living’. E essa era Dolly. Ela pode ter partido, mas ainda está viva em tudo aquilo em que investiu seu coração.”
+++ LEIA MAIS: Todos podemos concordar sobre Dolly Parton. Ela queria algo mais de nós

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Publicado por: CT Jones

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