
Durante muito tempo, o cinema LGBT+ pareceu condenado a contar histórias em que personagens gays precisavam sofrer para que suas existências fossem reconhecidas. Daniel Nolasco (Vento Seco), porém, encontra outra maneira de revisitar essas experiências, sem ignorar as dores, mas recusando-se a fazer delas o único caminho possível.
Em Pequenas Tragédias, o cineasta parte de suas próprias lembranças para construir um retrato afetivo, irreverente e tragicômico de Catalão, cidade do interior de Goiás onde cresceu e realizou boa parte de seus filmes. Em vez de se limitar à reconstituição dos acontecimentos, Nolasco brinca com as próprias memórias, exagera situações e transforma experiências pessoais em pequenas fábulas atravessadas pelo humor e pelo desejo.
Há uma liberdade deliciosa na maneira como expõe fetiches, brinca com a sexualidade e faz comentários metalinguísticos, como quando promete não incluir nada de sexo explícito para agradar à distribuidora ou justifica a escolha de um ator particularmente bonito para interpretar um antigo affair pelo simples prazer visual.
Até as limitações da produção acabam incorporadas à brincadeira: impossibilitado de filmar em um dos locais onde trabalhou, Nolasco transforma a restrição em um exercício lúdico, usando um campo aberto e a interação entre atores e elementos de cena para sugerir o espaço que não pode mostrar.
O resultado é um filme que revisita a homofobia, os preconceitos e as perdas que marcaram a trajetória sem abrir mão da graça, do erotismo e da fantasia. Afinal, mesmo quando fala de pequenas tragédias, Nolasco parece mais interessado na vida que insiste em florescer apesar delas.
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Publicado por: Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva)






