
Viajar faz parte da minha rotina há décadas. Mas, além do destino final, confesso que sou um apaixonado assumido pela aviação civil. Em cada jornada, procuro rotas alternativas, conexões improváveis e diferentes modelos de aeronaves. Gosto de colecionar rotas no Flightradar24, destrinchar estatísticas de voo e reparar em detalhes que passam despercebidos pela maioria dos passageiros.
Para inaugurar essa faceta de «sommelier de voos» aqui na coluna — um espaço onde pretendo avaliar rotas e experiências aéreas pelo mundo —, nada melhor do que testar uma das novidades mais aguardadas do ano: o voo TP67, a ligação direta entre Lisboa e Curitiba.
A aposta da TAP no Brasil fora do eixo tradicional
A TAP Air Portugal tem uma estratégia clara: conectar capitais brasileiras a Lisboa para, a partir de lá, distribuir passageiros pela Europa — e vice-versa. Essa descentralização abriu portas para mercados importantes fora do eixo Rio-São Paulo.
No caso da capital paranaense, a rota foi inaugurada recentemente, em 2 de julho de 2026, tornando-se a primeira ligação aérea regular direta da história entre o Paraná e o continente europeu.
A minha viagem, no entanto, não começou em Lisboa. Eu vinha do Porto. E essa perna inicial apenas confirmou a praticidade da rede: em vez de encarar a saturação habitual de conexões em Guarulhos para retornar ao Sul do país, fiz o trecho Porto–Lisboa–Curitiba. O Aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, segue sendo um exemplo: moderno, eficiente e fluido.
O contraste, contudo, veio na chegada à capital portuguesa.
O calcanhar de Aquiles: o nó de Lisboa
Se a malha da companhia aérea é inteligente, o aeroporto de onde ela opera cobra seu preço. O Aeroporto Humberto Delgado (Portela) é velho, saturado e cresceu ao longo das décadas sem um planejamento integrado. O resultado é um autêntico «Frankenstein» arquitetônico, com corredores estreitos, labirínticos e constantemente superlotados.
Para sair do espaço Schengen, tive sorte. O processo foi relativamente rápido graças aos portões eletrônicos de leitura de passaporte biométrico — como já havia feito o pré-cadastro com coleta de dados e foto, passei sem fila.
A conferência da imigração: Vale o alerta: se na saída o fluxo pelos e-gates é ágil, na chegada a Portugal a realidade é oposta. Com a implementação do sistema biométrico europeu (EES), mesmo os passageiros que passam pelos totens automatizados acabam sendo direcionados aos guichês das autoridades de fronteira para validação final, o que tem gerado gargalos severos e filas que facilmente superam duas a três horas em horários de pico.
Passado o controle, cheguei ao portão de embarque e me deparei com uma cena clássica de Lisboa: salas subdimensionadas onde não há assentos suficientes nem para metade dos passageiros de um voo intercontinental. Resultado? Dezenas de pessoas sentadas pelo chão, corredores bloqueados e banheiros minúsculos congestionados. Para completar, o voo sofreu um atraso de duas horas por razões técnicas, transformando a espera num teste de paciência.
A máquina: um wide-body pousando no Afonso Pena
Quando finalmente embarcamos, a frustração deu lugar à curiosidade técnica. O voo foi operado por um Airbus A330–200 de prefixo CS-TON, batizado de Nuno Gonçalves. Trata-se de uma aeronave entregue originalmente à TAP em fevereiro de 2008 — portanto, um veterano com cerca de 18 anos de operação, mas que cumpre o papel de longo curso com cabine de dois corredores (wide-body).
Para mim, esse pouso teve um sabor especial. Já decolei ou pousei 54 vezes no Aeroporto Internacional Afonso Pena (CWB). Moro perto do aeroporto e acompanho sua rotina: aviões de fuselagem larga por aqui são, quase sem exceção, cargueiros pesados — como os imponentes Boeing 747F da Atlas Air. Foi a primeiríssima vez na vida que desembarquei em Curitiba a bordo de um wide-body de passageiros.
O TP67, contudo, não tem Curitiba como ponto final isolado. A operação é triangular: a aeronave decola de Lisboa, pousa em Curitiba para o desembarque de parte dos viajantes e segue viagem até o Galeão (GIG), no Rio de Janeiro. Por isso, a aeronave estava completamente lotada.
Essa dinâmica responde a uma limitação física histórica do nosso aeroporto: a pista de Curitiba (com 2.218 metros) e a altitude local não oferecem margem para que um A330 decole com peso máximo (tanque cheio de combustível + passageiros + carga) para cruzar o Atlântico de volta. No sentido contrário (CWB–LIS), o avião decola relativamente leve, pousa no Galeão para abastecer e completar passageiros, e aí sim inicia a travessia oceânica. É uma solução que lembra o que já vimos anos atrás, quando voos partiam daqui com destino a Miami fazendo parada técnica em Porto Alegre exatamente pela mesma restrição de pista.
O jogo das milhas: como pontuar e emitir nessa rota
Para quem acompanha o mercado de fidelidade, voar com a TAP abre um leque interessante de estratégias. A companhia portuguesa é membro da Star Alliance, a maior aliança global de companhias aéreas do planeta. Isso significa que você não fica preso a apenas um programa: um voo operado pela TAP pode render milhas em qualquer empresa parceira do grupo, como United (MileagePlus), Copa Airlines (ConnectMiles), entre outras.
Além da aliança, há as parcerias bilaterais:
Azul: Graças à parceria histórica entre as duas empresas, você pode voar de TAP e optar por creditar seus pontos diretamente no programa da Azul. Smiles: É possível usar milhas Smiles para emitir passagens puras ou trechos operados pela TAP através da plataforma de parceiras, mas a via contrária não existe: você não consegue acumular milhas na Smiles ao voar em bilhetes pagos da TAP. No meu caso, a decisão foi estratégica. Como costumo voar por rotas menos convencionais ao redor do globo com outras operadoras da Star Alliance — como a Ethiopian Airlines na África, a Lufthansa e Swiss na Europa ou a Air India na Ásia —, preferi abrir e centralizar minha pontuação diretamente no TAP Miles&Go.
Em vez de deixar pontos picados e prestes a expirar espalhados em vários programas diferentes, concentro o crédito de todas essas viagens em uma única conta. Assim, o saldo atinge volume suficiente para resgates reais de passagens no futuro, transformando os trechos acumulados pelo mundo em novas viagens.
A vida a bordo: 10h20 sobre o oceano
Uma vez no ar, o voo transcorreu com absoluta estabilidade e tranquilidade.
O serviço de bordo ofereceu duas etapas bem distribuídas ao longo das mais de dez horas de viagem:
Primeiro serviço (almoço/jantar): Opção entre massa ou carne com batatas e legumes. Fui na carne, que veio acompanhada de pão, queijo, salada fresca e uma mousse de chocolate de sobremesa. Para beber, uma boa oferta com refrigerantes, sucos e vinhos — optei pelo vinho tinto português, que acompanhou muito bem o prato. Segundo serviço (quase na chegada): Um lanche mais leve, com sanduíche e bebidas, servido pouco antes de iniciarmos a descida para o Paraná. No entretenimento de bordo, esbarrei no meu gosto pessoal: fujo de filmes de super-heróis e blockbusters previsíveis, o que costuma limitar minhas opções no catálogo padrão das companhias aéreas. Para não depender da sorte, costumo viajar prevenido com meu tablet recheado de vídeos baixados do YouTube, aproveitando o tempo livre para maratonar canais de viagem — especialmente as expedições pelo mundo do Renan e da Michele, do canal Mundo Sem Fim.
Só que cometi um erro clássico de cálculo: o conteúdo que baixei acabou bem antes das 10 horas e 20 minutos de voo. Sem opções no meu acervo pessoal, fui garimpar a tela da TAP e encontrei a série sobre cidades de Portugal apresentada pela Joana Balaguer. Foi o que salvou as últimas horas no ar, embora com um detalhe curioso: o roteiro e as dicas do programa são refinados e sofisticados demais para quem, como eu, viaja quase sempre no estilo mochilão raiz e hospedagem simples em hostel. Ainda assim, serviu como uma agradável distração cultural.
Veredito
Pousar em Curitiba vindo direto da Europa foi marcante. Este foi o meu terceiro voo internacional com chegada direta no Afonso Pena (as outras duas experiências foram vindas de Buenos Aires – Aerolineas Argentinas e de Lima – LATAM). Ver a capital paranaense conectada diretamente ao outro lado do Atlântico, recebendo aeronaves de grande porte e oferecendo uma alternativa real para fugir das conexões em São Paulo, é um ganho imenso parao Estado do Paraná.
A operação tem seus desafios — principalmente a logística triangular e a necessidade de enfrentar a precária sala de embarque de Lisboa —, mas o conforto de descer do avião praticamente em casa compensa quase qualquer percalço. Que a rota amadureça, se consolide e abra espaço para novas conexões internacionais.
E você, já experimentou essa nova rota ou costuma evitar conexões por Lisboa? O que achou dessa análise de bordo? Deixe seu comentário e compartilhe sua experiência com as conexões pelo Brasil!
https://turismo.ig.com.br/colunas/pedro-hauck/2026-11-01/como-foi-voar-no-inedito-lisboacuritiba-da-tap.html
Fuente Prensa Mercosur.
Publicado por: Redacción Central





