Omar Rodríguez-López fala ao TMDQA! sobre “Lua Rosa”, filme que chega ao Brasil em breve como parte do Lumen Film Festival

Omar Rodríguez-López
Divulgação

Ícone do The Mars Volta, o guitarrista Omar Rodríguez-López é tão apaixonado por música quanto pelo cinema e já deixou isso claro no passado. Agora, volta para trás das câmeras com Lua Rosa, sua nova ficção científica em preto e branco, falada em espanhol e ambientada em Borinquen, o nome indígena de Porto Rico, que acompanha Zur’na (Flora Sylvestre) em uma jornada que evoca diferentes emoções.

O filme chega agora ao Brasil como parte da programação do Lumen Film Festival, que em 2026 realiza sua segunda edição. O festival acontece no Rio de Janeiro entre 6 e 14 de novembro e segue em versão itinerante para Brasília, de 3 a 6 de dezembro, no Cine Brasília, com entrada gratuita nas duas cidades.

Para Omar, a combinação é difícil de melhorar: “Acho incrível. É o ambiente perfeito para esse filme, uma combinação perfeita”, diz ele ao TMDQA! sobre ver o longa exibido em um festival independente e gratuito.

Rodado por volta de 2021, segundo o próprio diretor, e exibido em festivais como o de Roterdã, Lua Rosa tem trilha sonora assinada por Omar e por John Frusciante, guitarrista do Red Hot Chili Peppers, e leva para a ficção científica uma pergunta que o músico, nascido em Bayamón, faz há muito tempo: o que acontece com um povo quando o futuro se parece com o passado?

A resposta que ele encontrou é desconfortável e, por isso mesmo, funciona como motor dramático de um filme que, apesar do tema, também diverte quem gosta de ficção científica, filmes B e até terror.

Na conversa com o site, Omar falou do processo de criação do filme, da condição colonial de Porto Rico, do trabalho ao lado de Frusciante, da influência do cinema brasileiro e do retorno do The Mars Volta com o disco autointitulado, muito carregado por essa necessidade de se expressar.

Omar Rodríguez-López fala sobre o novo filme Lua Rosa

A origem do filme, conta Omar, veio de um momento pessoal. No caso de Lua Rosa, esse território interno era ocupado por uma preocupação com a família, com as pessoas que ele ama, com os amigos e com quem está ao redor:

Tudo que eu crio é extremamente pessoal, pelo menos para mim. Significa que o filme reflete o que está acontecendo na minha vida interior, que às vezes não bate com a minha vida exterior. Para mim, essa é a gênese do filme, e de qualquer coisa que eu faça.”

Fã de cinema em todos os registros, Omar defende que não existe hierarquia entre os gêneros e, muito por isso, decidiu que queria se arriscar a fazer uma ficção científica verdadeiramente latina mesmo com pouco orçamento. A tática, normalmente reservada para o terror, deu certo graças a uma sacada genial envolvendo seu vasto conhecimento de Porto Rico.

Omar conta ao site que sua terra natal é “a colônia mais antiga do mundo” e, por isso, não é difícil imaginar um futuro que repete o passado.

Visualizei que, cem anos no futuro, as coisas parecem como o passado, ou são até iguais a ele. [Em Porto Rico], daqui a cem anos, nada muda, porque é esse o padrão sob o domínio dos Estados Unidos.”

Essa escolha resolveu o orçamento e, de quebra, a estrutura do roteiro. Quem escolhe ficção científica já herda certas convenções, como um governo distópico que controla tudo e gente lutando por liberdade individual ou coletiva, e Omar percebeu que elas já descreviam o presente da ilha.

Seria preciso ser muito mais inteligente do que eu para imaginar como seria o futuro, mas aqui nada mudou. A gente continua colônia, continua recebendo o mínimo de bens, pagando caro e sendo taxado em excesso, sem voz sobre o próprio futuro, sem poder votar para presidente nem nas leis que nos governam.”

Com isso, ele conseguiu usar os marcos narrativos do gênero, como ele os chama, e torná-los pessoais. Mesmo a nave que aparece no céu do filme, observa, seria uma mudança grande demais para quem vive em Porto Rico, onde “pouca coisa mudou de verdade”.

“Ninguém quer ser colônia”

Entender a questão que envolve Porto Rico é uma tarefa complexa até mesmo para quem vive a ilha no dia a dia, quanto mais para quem está a milhares de quilômetros de distância como nós brasileiros.

O assunto ganhou força nos últimos anos graças à ascensão de Bad Bunny, mas Omar já fala sobre isso há algum tempo e, aproveitando o papo, deu uma verdadeira aula de história ao ser questionado sobre a visão popular acerca da relação com os Estados Unidos.

A gente nunca teve voz sobre o próprio futuro. Nunca nos deram a escolha de virar um estado ou continuar colônia; existem regras que são impostas sobre nós. Na verdade, ninguém quer ser colônia. O que as pessoas querem é ser independentes ou virar um estado, e quem quer a independência é minoria, ainda que eu esteja nessa minoria.”

Ainda assim, a escolha de se tornar um estado dos EUA simplesmente não é oferecida. Ele reforça na resposta que a pergunta vinda de um brasileiro é muito válida, já que nem mesmo o povo estadunidense tem conhecimento das questões que envolvem a ilha localizada a mais de 3.500km do centro geográfico do país na América do Norte.

Apesar da compreensão de que nós, como brasileiros, não temos nenhuma obrigação de saber os detalhes que envolvem essa briga, ele mostra sua revolta ao falar sobre a contradição de um país “fundado sobre o conceito de nenhuma taxação sem representação”, como os EUA, manter um território que é justamente taxado sem representação e sem direito a voto. O guitarrista ainda finaliza: “Tanta gente vem passar férias aqui, tanta gente vem atrás de isenção fiscal…”.

Um filme latino, e não um filme político

O elenco reúne atores de vários países da América Latina, como Venezuela, Colômbia e México, além de Porto Rico, e Omar vê nisso um desdobramento natural de sua proposta, “quase parte do DNA” do filme. Dessa forma, segundo ele, é possível exemplificar a diversidade da América Latina, desfazendo a imagem de uma cultura monolítica:

Nós, latinos, não temos um único ponto de vista. Não existe um posicionamento político único, existem conservadores, existem liberais, como em qualquer outro lugar do mundo.”

O curioso é que, segundo suas próprias palavras, Rodríguez-López só se deu conta de que seu filme seria percebido como uma obra política quando ele foi exibido na Europa e as primeiras resenhas o descreviam dessa forma. Ao mesmo tempo que isso o frustrou, reflexões fizeram com que ele entendesse essa perspectiva e como ela está ligada à existência latina:

Eu não o escrevi como um filme político, não pensei nele como um filme político e até hoje não penso. Só entendo agora como fui ingênuo de achar que as pessoas entenderiam o significado real do filme, que é completamente emocional, espiritual e pessoal. Tudo que parece extremo é apenas a história de Porto Rico. […] Isso é inerentemente político, se você quiser enxergar assim, e também é inerentemente emocional”.

No centro da trama estão três irmãs, e elas ajudam a entender a verdadeira intenção por trás do filme:

Eu não tenho irmãs. Quem me criou foram minha mãe, minha avó e minhas tias. O filme é sobre a relação delas, o trauma geracional, como cada uma lidou com isso à sua maneira e como isso moldou a vida emocional e também a vida política de cada uma, ou seja, o que elas acreditam, a posição que elas têm diante dos acontecimentos do mundo.”

É por isso, completa, que as personagens discordam entre si mesmo tendo vivido a mesma dor, uma forma de mostrar que quem compartilha uma história não necessariamente pensa igual.

A trilha, o som como cor e a parceria com John Frusciante

A música tem papel central no filme, como era de se esperar, e envolve a reedição de uma parceria de longa data com John Frusciante, com quem o guitarrista tanto já colaborou. Ele explica que fez o filme sem as composições prontas, mas sabendo o que gostaria de mostrar em cada cena, e inclusive utilizando ideias já prontas do músico do RHCP:

Eu sabia mais o que eu queria evitar e o que eu queria usar. Era como um tom, uma cor que você vai imaginando enquanto filma. […] Eu escrevi em cima de muito material que o John já tinha me mandado. Eu escutava e pensava: isso é um sentimento, é uma cor que eu quero usar. Hoje esses discos já saíram, mas na época era só coisa que ele compartilhava comigo.”

Esse pensamento, ele explica, está mais ligado às faixas mais eletrônicas. Por outro lado, a parte mais emotiva da trilha, com cordas e arranjos mais grandiosos, veio “durante e depois da montagem”, trazendo uma “abordagem um pouco mais tradicional de fazer trilha de filme”.

Lua Rosa estreia no Brasil no Lumen Film Festival de Cinema Independente

Sobre a exibição no Lumen, Omar diz esperar que o filme converse com um público específico, ainda que não seja um filme para todos.

É um filme muito particular, mas quem se interessa por esse tipo de gênero e por cinema experimental, especialmente na América Latina, vai se identificar. Tentei apresentar vários pontos de vista e espero que as pessoas considerem as vozes umas das outras, sem chegar a uma conclusão, mas engajando numa introspecção contínua e também num diálogo”.

O objetivo, resume, é provocar uma conversa interna:

Tudo começa no mundo interior. Se o filme conseguir causar uma conversa reflexiva na cabeça de alguém, algo como ‘eu consigo enxergar esse ponto de vista’ ou ‘talvez eu não concorde, mas entendo por que alguém sentiria isso’, essa é a meta. E que depois isso possa virar um diálogo externo.”

Vale ressaltar que, para o diretor, isso tudo é resultado de uma acumulação de referências que passam inclusive pelo cinema brasileiro. Ele menciona clássicos como Cidade de Deus, O Agente Secreto e Ainda Estou Aqui, e até os mais antigos Pixote, Central do Brasil e O Pagador de Promessas – nenhum deles de ficção científica, claro, mas ele explica por que isso pouco importa:

Mesmo sem conseguir citar agora um filme brasileiro de ficção científica, acredito que o mesmo espírito esteja muito presente no que eu faço. Essa energia bem viva de fazer algo com os recursos que a gente tem, porque nem eu nem vocês temos uma indústria no estilo de Hollywood por trás. Eu me considero influenciado por tudo que vejo, ouço, toco e como”.

The Mars Volta e o cinema como fonte de tudo

A conversa, claro, passou também pelo retorno do The Mars Volta com o álbum autointitulado, lançado em 2022, após uma fase solo bastante prolífica de Omar.

Ele conta que só aceitaria voltar à banda por um motivo real e, sem fugir de uma verdade talvez um pouco indigesta para alguns, admite que a reunião do At the Drive-In pouco antes tinha sido outra coisa:

Foi mais no sentido de ‘vamos lá tocar, vamos ganhar dinheiro’. A gente tinha dito não por tanto tempo que era uma forma de rever os caras e viajar pelo mundo. Com o Mars Volta, que é mais próximo do meu coração, precisa existir um conceito definidor, um tema central. Qual é a tese, qual é a antítese e qual é a síntese disso, como se fosse um roteiro.”

Foi o que Cedric Bixler-Zavala e a família dele atravessaram que forneceu esse eixo. Para quem não se lembra, o vocalista se tornou perseguido pela Cientologia depois que sua esposa denunciou diversas práticas, incluindo o abuso sexual que teria sofrido por parte do ator Danny Masterson (That ’70s Show), condenado em 2023 a 30 anos de prisão por seus crimes.

“Aquilo era algo que valia a pena apoiar, que eu conseguia entender, ou pelo menos tentar entender, e ajudar a atravessar da forma que eu pudesse”, explica Omar. O sentimento já havia sido revelado ao TMDQA! em uma entrevista com Cedric em 2022, na qual ele explicou que o disco autointitulado era “o mais pesado” da carreira do The Mars Volta.

Sobre isso, Omar complementa com sua própria definição:

A música que eu escrevi para aquele disco eu considero bem leve, bem aérea, e é justamente isso que a torna pesada para mim. [Pesado] não quer dizer sombrio; quer dizer carregado, cheio, no sentido de que você dá tudo de si, e a soma de tudo isso vira algo muito poderoso.”

O álbum em questão marcou também uma aproximação ainda maior com a Salsa, gênero marcante na vida de ambos, e um assunto que veio à tona foi o documentário Nuestra Cosa, citado por Cedric anos atrás como uma influência fundamental para ambos. Omar conta que cresceu com o filme, um documentário sobre a Salsa, e que quase não tinha com quem dividi-lo, e explica também como música e cinema interagem em sua mente:

Eu vim do Punk, e a galera do Punk não ouvia Salsa. O Cedric foi o único amigo que mostrou interesse, então comecei a mostrar para ele, a colocar o filme todos os dias. Minha principal paixão é o cinema, e o cinema contém tudo: música, palavra escrita, poesia, literatura, o corpo das pessoas, movimento físico, figurino, cenografia, câmera, fotografia, som. Para mim, tudo sempre foi cinema, e o The Mars Volta é um projeto cinematográfico.”

Na minha mente existem imagens passando o tempo todo, criando uma conversa. Estou sempre tentando descrever algo que vi dentro da minha cabeça, algo que foi projetado para mim no cinema da minha mente. Se eu conseguir descrever isso por meio de um filme, ótimo. Se for cozinhando uma refeição, ótimo. Sendo um bom amigo, amando alguém, fazendo música, batendo pedras no chão, tudo bem”.

O processo, reconhece, é cansativo, já que não há como desligá-lo “a não ser que você dedique a vida inteira à espiritualidade, como um monge”. Não à toa, Omar até nos surpreendeu quando perguntado sobre seu próximo projeto, anunciado em materiais de divulgação como um faroeste que estaria em produção.

Ele corrigiu, dizendo que este projeto já foi finalizado e agora tem outro em andamento. Ainda assim, trouxe mais detalhes: trata-se de uma história que se passa no México de 1916, durante a Revolução Mexicana, e que se classifica como um faroeste mais pela imagética do que pelo enredo.

“Não tem tiroteio, é um filme muito simples”, brinca o diretor e músico ao resumir que se trata de uma história que acompanha dois desertores da guerra que vivem escondidos no deserto, e a chegada de uma terceira pessoa altera a dinâmica do pequeno mundo que haviam criado.

Por enquanto, Lua Rosa é o projeto que recebe as atenções de divulgação e o público brasileiro finalmente terá a possibilidade de assisti-lo na programação do Lumen Film Festival. Veja todas as informações mais abaixo!

Serviço

Lumen Film Festival (2ª edição)
Rio de Janeiro: 6 a 14 de novembro de 2026
Brasília (etapa itinerante): 3 a 6 de dezembro de 2026, no Cine Brasília
Ingressos: entrada gratuita
Mais informações: lumenfilmfestival.com

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Publicado por: Felipe Ernani

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