
FBC está de volta — desta vez, com mais uma mudança de gênero. Fabrício Soares Teixeira, rapper mineiro nascido em 1989 e criado no Cabana do Pai Tomás, favela da região oeste de Belo Horizonte, já transitou pelo Miami bass, pelo boom bap, pelo funk dos anos 1980, pelo soul e, mais recentemente, pelo rock e pelo hardcore pesado de Tambores, Cafezais, Fuzis, Guaranás e Outras Brasilidades (2026), lançado no Dia do Trabalhador. O próximo capítulo dessa trajetória de reinvenções chegou hoje, 9, às plataformas digitais, pela ONErpm: Skarnaval EP. 1, primeira parte de um projeto em três etapas, construído sobre o ska e dedicado às diferentes fases da vida de um personagem brasileiro, da infância à vida adulta.
O gênero jamaicano, que influenciou diretamente o punk e o rock alternativo e tem raízes profundas na cultura de rua brasileira, funciona como um fio condutor que une festa, humor e afeto sem abrir mão da leitura política característica da música de FBC. As cinco faixas do EP partem do olhar de uma criança que ainda não sabe nomear o que sente, mas observa o mundo ao redor com a curiosidade de quem percebe que algo não está certo.
“Eu queria trabalhar muito essa coisa do ‘por quê?’ que a criança tem. Essa curiosidade de querer entender tudo, de questionar as coisas, que em algum momento da vida a gente acaba perdendo”, diz o rapper.
É nesse espaço entre a inocência e a intuição que o projeto lança suas sementes, com questões que ganharão novos sentidos à medida que o personagem avançar pelos próximos capítulos.
A faixa principal do EP é “Greve das Crianças”, que conta com a participação de Fernanda Takai, vocalista do Pato Fu, em uma espécie de manifesto infantil bem-humorado. Videogame como matéria obrigatória, cinco fins de semana por semana e a proibição mundial das segundas-feiras estão entre as reivindicações. Por trás da brincadeira, porém, a música apresenta o que FBC descreve como o primeiro lampejo de percepção da exploração e da desigualdade. Ainda sem vocabulário para compreender esses conceitos, a criança apenas nota que o pai chega em casa cansado demais para brincar. Construída como um decreto infantil, a letra antecipa a consciência de classe que se desenvolverá ao longo do projeto. “Essa faixa é o primeiro momento em que a criança começa a perceber a exploração e a desigualdade. Só que ela ainda não consegue entender que aquilo é a exploração do trabalhador, que é o capitalismo agindo. Ela só percebe que o pai chega cansado em casa e não tem tempo para brincar”, explica.
Skarnaval EP. 1 chega acompanhado de um manifesto escrito por Renato Amaral e Luiz Ramos, que contextualiza o projeto com dados sobre a infância no Brasil. Segundo a Fundação Abrinq, em 2024 cerca de 15,4 milhões de crianças viviam em situação de pobreza, das quais 5,5 milhões estavam em situação de pobreza extrema. O documento também cita dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, que registra 428 crianças e adolescentes mortos por intervenção policial em 2025, além de números sobre trabalho infantil: mais de 4,3 mil crianças foram resgatadas naquele ano, o maior total da década. Encerrado com a frase “vai começar a greve das crianças”, o manifesto amplia a crítica que as músicas constroem de forma lúdica.
O EP abre uma série de três lançamentos que compõem Skarnaval. O segundo capítulo, dedicado à adolescência, chega em novembro. Em dezembro, o álbum completo reunirá as faixas dos dois EPs e novas músicas sobre a vida adulta, completando a trajetória do personagem. Todas as faixas ganharão vídeos animados no canal oficial de FBC no YouTube.
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Publicado por: Kadu Soares (@kadusoares__)






