Quase entrando para o The Who e as frustrações de ser ídolo teen: o que aprendemos com o novo documentário de Peter Frampton

A trajetória de Peter Frampton, em linhas gerais, é uma história conhecida pela maioria dos fãs de rock clássico: o guitarrista deixou o Humble Pie em 1971 para iniciar carreira solo, enfrentou algumas dificuldades no começo, tornou-se uma estrela mundial graças ao álbum ao vivo Frampton Comes Alive!, de 1976, estrelou ao lado dos Bee Gees o famigerado fracasso de bilheteria Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, de 1978, e depois passou anos tentando juntar os pedaços de sua carreira destruída, até que seu amigo de infância David Bowie o colocou novamente diante de multidões em estádios durante a turnê Glass Spider.

Mas esse resumo deixa muita coisa de fora. Foi por isso que Rob Arthur, líder da banda de Frampton há muitos anos, passou os últimos anos filmando o documentário intimista Frampton, que estreou em 4 de junho no Festival de Cinema de Tribeca e será exibido no Festival de Cinema de Nashville em 24 de setembro. O filme acompanha a história de Frampton desde a infância em Londres, passando pela formação de suas primeiras bandas, The Herd e Humble Pie, até Frampton Comes Alive! mudar sua vida para sempre — e estabelecer um sucesso praticamente impossível de superar.

A segunda metade do filme é dedicada à trajetória de Frampton após Frampton Comes Alive!, incluindo um devastador acidente de carro, o fim de seu primeiro casamento, a luta contra a cocaína, a perda de praticamente todo o seu dinheiro devido a uma administração financeira ineficiente e o diagnóstico de miosite por corpos de inclusão, doença muscular que tornou cada vez mais difícil para ele sair em turnê ou até mesmo tocar guitarra.

A história é contada por meio de imagens de arquivo e novas entrevistas com Frampton, sua ex-esposa, seus filhos, integrantes de sua banda e amigos, incluindo Roger Daltrey, Tom Morello, Sheryl Crow, Cameron Crowe, Herb Alpert, Glyn Johns e Kate Hudson. O documentário está repleto de revelações. Confira dez coisas que aprendemos.

O baixista dos Rolling Stones, Bill Wyman, produziu sua primeira sessão de gravação

Quando Frampton tinha apenas 14 anos, seu grupo de R&B, The Preachers, gravou “Hole in My Soul” com Bill Wyman como produtor. Foi a primeira vez de Frampton em um estúdio de gravação.

“Você estava tocando frases de jazz incríveis”, recorda Wyman no documentário, sentado ao lado de Frampton. “Pensei: ‘Meu Deus, esse cara é incrível. Onde diabos ele aprendeu a tocar assim? Ele deve ter ouvido Django Reinhardt ou Les Paul.’”

Ele odiava ser um ídolo adolescente anos antes de Frampton Comes Alive!

Quando seu primeiro grupo, The Herd, começou a fazer sucesso, a imprensa concentrou grande parte da atenção em Frampton por causa de sua aparência, chegando a chamá-lo de “O Rosto de 68” e estampando sua imagem nas capas de revistas voltadas ao público adolescente. Os outros integrantes do grupo eram praticamente ignorados.

“A banda não ficou muito feliz, e eu também não”, afirma. “E aquilo foi meio que o começo do fim do Herd.”

Suas melhores lembranças são do trabalho com George Harrison em All Things Must Pass

Frampton não foi creditado como músico em All Things Must Pass, de George Harrison, mas seu trabalho no violão está espalhado por todo o álbum. No documentário, Frampton retorna aos estúdios Abbey Road e quase se emociona ao apontar o local exato onde se sentou para gravar suas partes, diretamente ao lado de Harrison.

“Se há violão no álbum, estou em praticamente todas [as músicas], mas não consigo me lembrar”, afirma. “Eu estava mais interessado nos momentos em que eles trocavam os rolos de fita, como faziam naquela época, porque George e eu começávamos a improvisar… As pessoas perguntam: ‘Qual foi a parte mais memorável da sua carreira?’ Todo mundo acha que vou dizer Frampton Comes Alive!. Eu respondo: ‘Sentar em dois banquinhos em Abbey Road, olhando através do vidro, tocando com George e conversando com Phil Spector.’”

Ele mudou a vida de Sheryl Crow durante a turnê de Frampton Comes Alive!

Quando Sheryl Crow tinha apenas 13 anos, ela foi ao Mid-South Coliseum, em Memphis, Tennessee, para assistir a Frampton.

“Foi o meu primeiro show”, conta. “Foi literalmente o verão de Frampton. Você queria poder dizer que tinha ido àquele show. Para nós, saindo de uma cidade minúscula, com apenas alguns semáforos, fazendo aquela viagem, descendo lá dos lugares mais altos da arquibancada e conseguindo chegar até a pista — e aquele sendo o seu primeiro show… aquilo abriu o caminho para que eu pensasse: ‘Cara, como eu adoraria que esse fosse o meu trabalho.’”

A cocaína se tornou um grande problema quando a fama chegou

Durante vários anos em meados da década de 1970, Frampton praticamente viveu na estrada. E, à medida que aumentava a pressão para superar o sucesso de Frampton Comes Alive!, ele passou a consumir cada vez mais cocaína.

“As casas noturnas em Nova York só abriam à 1h da manhã”, conta. “Você nem precisava comprar drogas. Simplesmente enfiavam no seu nariz. Eu não percebia na época, mas tenho uma personalidade propensa ao vício. Na turnê de I’m in You, eu estava me automedicando mais do que nunca.”

Ele aceitou estrelar Sgt. Pepper porque disseram que Paul McCartney estaria no filme

Quando o produtor Robert Stigwood inicialmente abordou Frampton para estrelar o filme Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, o músico, compreensivelmente, ficou bastante hesitante. Ele só concordou depois que Stigwood disse que Paul McCartney também participaria do longa.

“Nós estávamos tocando em Wembley, e na noite anterior Paul McCartney e os Wings tinham se apresentado, então fui vê-los”, recorda Frampton. “Estou no camarim com Paul e Linda. Linda diz: ‘Paul, Peter vai fazer aquele filme de Sgt. Pepper.’ Eu disse: ‘Pelo jeito, vou encontrar você no set.’ Ele respondeu: ‘Por quê? Não. Eu não faço parte disso. Não estou nesse filme.’ E eu já tinha assinado o contrato para fazer o filme.”

Pete Townshend o convidou para entrar no The Who

Em algum momento no início da década de 1980, Pete Townshend telefonou para Frampton para saber se ele estaria interessado em entrar para o The Who como guitarrista de turnê. A ideia permitiria que Townshend ficasse em casa e se concentrasse exclusivamente em compor.

“Eu disse: ‘Sério? Você já falou com Roger [Daltrey] e [John] Entwistle sobre isso?’”. Townshend respondeu que pretendia conversar com eles no dia seguinte. “Eu disse: ‘Pete, por que você não faz uma coisa por mim?’”, recorda Frampton. “‘Por que você não liga para eles e depois me telefona de volta?’”

Foram necessárias várias semanas até Frampton conseguir falar novamente com Townshend por telefone. Como era de se esperar, a proposta já não estava mais de pé. Foi um golpe devastador para Frampton, especialmente porque ele realmente precisava do trabalho naquele momento.

Ele precisou pedir US$ 100 mil emprestados a Ahmet Ertegun

Depois de ser dispensado por sua gravadora e descobrir que não tinha nem perto da quantidade de dinheiro no banco que imaginava, Frampton estava, na prática, falido.

“Precisei pedir dinheiro emprestado para viver”, afirma. “Procurei meu querido amigo, [fundador da Atlantic Records] Ahmet Ertegun, sentei no escritório dele e estava muito nervoso. Eu nunca tinha pedido dinheiro a ninguém na minha vida. Ele perguntou: ‘Quanto você precisa?’ Eu disse: ‘US$ 100 mil.’”

Frampton então imita Ertegun preenchendo rapidamente um cheque. “Foi só isso. Fiquei arrepiado naquele momento. Fico arrepiado até hoje. Isso é um amigo. E, neste negócio, não existem muitos assim. Aquele foi um dos momentos mais baixos para mim.”

Ele credita a David Bowie a retomada de toda a sua carreira

Em 1987, mais de uma década depois do auge de Frampton Comes Alive!, quando sua carreira parecia tão morta quanto a disco music, Frampton foi convidado por David Bowie para entrar em estúdio e tocar guitarra em Never Let Me Down. O álbum se tornou uma decepção tão notória que até o próprio Bowie acabaria renegando o trabalho posteriormente.

Mas o disco deu origem a uma enorme turnê que colocou Frampton novamente em grandes palcos pela primeira vez desde os anos 1970.

“Eu agradeci muito a ele enquanto estava vivo”, afirma Frampton. “E agradeço a ele todos os dias. Foi quando as coisas começaram a acontecer novamente para mim. No início dos anos 1990, montei minha banda e voltei a fazer turnês. Eu estava de volta.”

A miosite por corpos de inclusão tornou muito difícil continuar fazendo turnês

Para continuar se apresentando nos últimos anos, Frampton se dedicou a uma intensa rotina de exercícios que ajuda a minimizar os efeitos da miosite por corpos de inclusão. Ainda assim, ele caminha com uma bengala, tem dificuldade para segurar o celular, movimenta-se muito lentamente e frequentemente perde o equilíbrio.

“É incrível como consegui continuar e fazer o que faço”, afirma. “Estou aprendendo a fazer aquilo que ouço aqui [na minha cabeça] com dedos que talvez não queiram ir exatamente para o lugar que eu quero, na hora em que quero. Preciso encontrar outras maneiras de fazer isso. E estou até gostando desse processo.”

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Publicado por: ANDY GREENE

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