
O Sepultura poderia ter acabado muitas vezes antes de decidir acabar. Sobreviveu à ruptura com Max Cavalera, à rejeição que o vocalista americano Derrick Green enfrentou desde Against (1997), à saída posterior de Igor Cavalera, a fases de menor prestígio comercial e, já com a turnê de despedida anunciada, à troca inesperada de bateristas, com Greyson Nekrutman no posto de Eloy Casagrande. Talvez por isso a reta final tenha menos aparência de funeral do que de demonstração de resistência.
Derrick é o símbolo máximo dessa sobrevivência. Entrou em 1997 encarregado da tarefa ingrata de ocupar um lugar que muitos fãs consideravam insubstituível. Permaneceu mais tempo e gravou mais álbuns que seu antecessor. Houve altos e baixos, é verdade, mas que banda de carreira longeva não tem? Ao entregar a Green todo o repertório de sua última passagem pelo Rock in Rio — executando somente canções de sua era —, o grupo completo por Andreas Kisser (guitarra) e Paulo Jr (baixo) deu um recado: tudo isso é Sepultura.
É curioso, aliás, decidir fazer de seu último show no Rock in Rio — dois meses antes da despedida real em São Paulo — aquilo que tantas bandas evitam quando chegam ao fim: recusando-se a transformar a última volta apenas em nostalgia. Em meio às últimas três décadas de carreira, o maior destaque foi oferecido justamente ao EP derradeiro The Cloud of Unknowing (2026), com a execução de suas quatro faixas.
Por outro lado, talvez este tenha sido o único ponto a comprometer o fluxo do show. As canções mais recentes, incluindo a balada “Beyond the Dream” e a estreante ao vivo “Sacred Books”, tiveram baixa adesão do público, que pareceu ter preferido pauladas como a dobradinha de abertura “Against” e “Choke”, a já clássica “Kairos”, o groove irresistível de “Mind War” e o encerramento com “Sepulnation” — justamente algumas das mais antigas. “Phantom Self”, de Machine Messiah (2017), e “Means to an End”, de Quadra (2022), mostraram o lado mais sofisticado do grupo, assim como “All Souls Rising”, destaque do citado EP.
No mais, tudo funcionou muito bem, especialmente se considerar o caráter único da performance. Parte da plateia deve ter se dado conta de que conhece e aprecia mais músicas da era Green do que o imaginado. A apresentação deste sábado, 5, serviu para fazer justiça àquele que, de acordo com Andreas Kisser, possibilitou a continuidade da existência do Sepultura.
Setlist
- “Against“
- “Choke“
- “All Souls Rising“
- “Kairos“
- “Means to an End“
- “The Place“
- “Phantom Self“
- “Convicted in Life“
- “Sacred Books“
- “Mind War“
- “Corrupted“
- “Beyond the Dream“
- “Sepulnation“
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Publicado por: Igor Miranda (@igormirandasite)






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