
Quando Endless surgiu de surpresa na madrugada de 19 de agosto de 2016, muita gente estava tão atordoada com a simples existência do projeto que deixou passar um detalhe escondido entre as faixas do disco: em um dos interlúdios, por poucos segundos, estava lá, uma voz brasileira, gravada 45 anos antes, incorporada ao universo sonoro de um dos artistas mais cultuados da música contemporânea. Dez anos depois, o aniversário de Endless é uma boa ocasião para entender o que aquele sample fazia ali.
A faixa se chama “Honeybaby” e o trecho sampleado é o refrão de “Ô, minha Honeybaby”, repetido de forma hipnótica pela voz que deu origem ao apelido da música. A canção original é “Vapor Barato”, composição de Jards Macalé e Waly Salomão, gravada em 1971 para o álbum ao vivo Fa-Tal – Gal a Todo Vapor (1971), de Gal Costa.
O álbum da brasileira é considerado o mais importante de sua carreira e uma obra-prima da discografia brasileira. Lançado pela Philips no fim de 1971, o disco registra o show Fatal (1971), apresentado naquele mesmo ano no Teatro Tereza Rachel, no Rio de Janeiro, sob direção de Waly Salomão. O álbum foi eleito pela Rolling Stone como o 20º melhor disco brasileiro de todos os tempos.
“Vapor Barato” foi composta em 1970, em circunstâncias políticas e culturais difíceis, em pleno período de repressão da ditadura militar, e serviu como pano de fundo musical para dois momentos de exílio na história brasileira. No show, a música fazia a transição entre duas partes: a primeira, intimista e acústica, com Gal ao violão; a segunda, mais agressiva e rock’n’roll. A frase “Graças a Deus”! — cantada por Gal logo após o verso “Eu não preciso de muito dinheiro” — entrou no disco contra a vontade do compositor Waly Salomão, que achava que não rimava. Gal insistiu e a frase ficou (via Novabrasil FM).
Frank Ocean não foi o único artista de fora do Brasil a descobrir Gal Costa naquele período. Poucos meses antes de Endless, em maio de 2016, o produtor haitiano-canadense Kaytranada lançou “Lite Spots” com um sample de “Pontos de Luz”, do álbum India (1973). Os dois lançamentos aconteceram no mesmo ano e recorreram a discos gravados pela mesma artista na mesma época — com pouco mais de dois anos separando os dois álbuns originais. Coincidência ou sinal de que o catálogo de Gal Costa estava, discretamente, sendo redescoberto por uma nova geração de produtores, que ouvia a MPB dos anos 1970 com outros ouvidos.
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Publicado por: Kadu Soares (@kadusoares__)






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