Ty Segall fala à RS sobre show no Brasil, novo álbum e quase 20 anos de carreira

Ty Segall em 2024 (Foto: Robin Little / Redferns via Getty Images)

Chamar Ty Segall de “prolífico” é pouco. O cantor e compositor americano, notório por sua abordagem revivalista do garage rock e da psicodelia, lançava múltiplos álbuns por ano no início de sua carreira. Também mantinha uma variedade de projetos paralelos.

Esse constante movimento criativo nunca o trouxe ao Brasil. No entanto, isso está prestes a mudar.

O músico se apresenta no dia 15 de novembro na Audio, em São Paulo, com abertura de Ema Stoned e Bike. Ingressos para o show, organizado pela Associação Cultural Cecília, estão à venda via Ticket360.

Em conversa com a Rolling Stone Brasil, Ty se mostrou empolgado em finalmente vir para o Brasil. O músico diz que desejava tocar no país desde seus 20 e poucos anos de idade e confidencia ter um plano bem simples de aproveitar sua passagem por aqui: comprar discos que o ajudem a se aprofundar na música brasileira.

“Uma coisa que eu realmente quero explorar é ir a lojas de discos e ouvir as pessoas dizendo: ‘Compre isso, compre aquilo, compre isso, compre aquilo’. Porque uma das melhores partes de fazer turnê é ir para um lugar novo e, com sorte, estar com alguém que diga: ‘Ok, vou te dizer o que comprar’. Já aconteceu comigo no Japão e na Europa várias vezes, e a coisa mais legal é voltar e pensar: ‘É, comprei cinco discos incríveis’.”

Ainda não tão conhecido do público brasileiro, Segall quis compartilhar uma mensagem para quem está interessado no show. Basicamente, amantes de música alta vão amar:

“Se você quer ouvir um rock and roll tocado bem alto, apareça por aqui. A gente só quer tocar, então, estamos muito animados para curtir com vocês, então venham.”

Novo álbum

A vinda de Ty Segall ao Brasil fará parte da turnê de seu novo trabalho solo, Chrome (2026), que saiu no fim do último mês de agosto. O álbum marca o reencontro do artista com sua banda de apoio de longa data – Emmett Kelly (guitarra), Mikal Cronin (baixo), Ben Boye (teclados) e Evan Burrows (bateria) – formada por músicos integrantes de uma rede pequena de colaboradores com quem Ty trabalha desde o início da carreira.

O objetivo em Chrome, segundo o artista, era justamente aproveitar essa cumplicidade de anos no palco, onde se desenvolveu uma “espécie de comunicação musical abreviada” na qual os membros quase conseguem ler a mente um do outro. Nesse álbum, Segall queria algo mais aberto e colaborativo:

“A base da banda, neste momento, é que seja uma interpretação aberta das minhas músicas, então não é como se eu quisesse que todos tocassem tudo exatamente como eu toco em uma demo, ou mesmo no disco. A ideia é que seja algo em constante mudança. Então, acho que a banda faz um ótimo trabalho nisso e nós tocamos juntos há tanto tempo que já virou algo não verbal.”

Colaboradores

Isso é um contraste com os trabalhos mais recentes, nos quais Ty gravou a maioria dos instrumentos sozinho ou se encarregou de todos os arranjos. Ao longo de sua carreira, o músico também viajou por diversos gêneros, desde o garage rock de seus primórdios à psicodelia acústica de Sleeper (2013), glam em Manipulator (2014) e pós-punk cáustico de Emotional Mugger (2016).

O grupo foi construído ao longo de anos. Burrows estreou em Emotional Mugger, enquanto Boye e Kelly fizeram suas primeiras aparições no disco Ty Segall (2017). O guitarrista veio a trabalhar ainda mais com Segall, participando da banda The C.I.A., formada com Ty e sua esposa, Denée Segall.

Sobre o projeto, Ty lembra da rapidez com que os três eram capazes de gerar material. Especialmente as contribuições de Denée, que também escreveu letras para Chrome. Segundo o músico, a experiência de colaborar com a esposa e vê-la criar versos para outros artistas lhe convenceu a querer trabalhar com ela no seu projeto autoral:

“Eu comecei a querer, tipo: ‘Ei, vamos tentar escrever uma música juntos para este álbum’. E deu super certo. E continuamos fazendo isso cada vez mais. Então, sim, nosso estilo de colaboração é ótimo. Eu sou mais abstrato, liricamente, e ela tem um estilo diferente, mais direto. Então, a combinação fica legal. Mas sim, nós sempre colaboramos visualmente, na nossa vida. Então eu realmente respeito a opinião dela. Ela vai me dizer quando algo for terrível, quando for ruim, o que é ótimo.”

Entretanto, Cronin é de longe o colaborador mais antigo do músico. Os dois são amigos desde o colégio, apareceram juntos em pontas na série da MTV Laguna Beach: The Real Orange County e chegaram a gravar um álbum colaborativo, Reverse Shark Attack (2009).

O baixista tem também uma carreira solo elogiada pela crítica, com quatro álbuns de estúdio – MCI (2011), MCII (2013), MCIII (2015) e Seeker (2019) – que exploram uma sonoridade mais power pop orquestral. Questionado se há alguma perspectiva do amigo lançar um quinto disco, Segall não quis abrir o jogo, mas concordou que já é hora de rolar:

“Acho que ele vai fazer mais um. Não posso falar por ele. Não sei quando, onde ou como. Mas sim, ele precisa fazer isso o mais rápido possível.”

Trilhas sonoras

Chrome não é o único trabalho de Ty Segall a ser lançado recentemente. Também no fim de agosto, ele disponibilizou o EP Love Fuzzz, que reinterpreta na faixa-título uma canção do álbum Twins (2012) com uma sonoridade mais doom metal. A tracklist é completada por “My Pet Guru”, mais influenciada por krautrock.

Além disso, no último dia 14 de agosto estreou nos cinemas americanos o filme The Wrong Girls, que conta com uma trilha sonora composta pelo músico. Infelizmente, a comédia – estrelada por Kristen Stewart e Alia Shawkat – não tem previsão de lançamento no Brasil.

No âmbito cinematográfico, ele já havia composto música para o documentário Whirlybird, dirigido por um de seus colaboradores, Matt Yoka. Sobre trabalhar em filmes, Segall comentou sobre como isso lhe dá a oportunidade de remover seu ego do processo criativo:

“É uma forma divertida de ajudar alguém a criar algo. É legal exercitar esse músculo criativo, mas você está tentando alcançar um objetivo diferente. Sabe, não há… bem, sempre há ego em tudo. É loucura dizer que não há ego nenhum, mas há menos ego envolvido para mim, já que estou apenas tentando criar coisas que se encaixem no projeto. E isso é legal. Sabe, eu adoraria fazer música orquestral para filmes. Eu amo todos os tipos de música. Não amo só rock and roll.”

Selo próprio

Essa veia altruísta também se manifesta em outro projeto seu. Em 2012, o músico lançou um selo chamado GOD? Records, subsidiário da gravadora independente Drag City, com quem o músico trabalha desde 2011. Segundo ele, o impulso para começar a empreitada surgiu da vontade de lançar um álbum do artista pós-punk americano Trin Tran. A ideia evoluiu para ajudar artistas underground a botar suas músicas no mundo:

“Depois disso, comecei a sentir aquela vontade de ajudar essa banda, e ajudar aquela banda, e agora é legal. Alguns projetos não foram financeiramente bem-sucedidos. Outros foram, então está tudo equilibrado. Agora o projeto se sustenta sozinho e eu posso lançar discos de bandas que eu gosto. É uma grande sorte. Então, agora sinto que é uma maneira legal de ajudar as bandas a lançarem seus discos.”

Sem saudosismo

A quantidade de lançamentos na carreira de Ty Segall também aponta há quanto tempo ele já está na indústria. Seu álbum de estreia, Ty Segall (2008), completa 20 anos de lançamento em 2028. Entretanto, o músico reconheceu ter uma relação distante com seu material mais antigo:

“Acho que o máximo que tenho revisitado é colocar um disco de uns 10 anos atrás que eu não ouvia há tempos e pensar: ‘Nossa, isso é bem legal’. Sabe, eu tenho até que aprender músicas antigas para as turnês.”

Ty passou um período no qual não via suas primeiras composições com bons olhos, mas está suavizando essa perspectiva ultimamente. Mesmo assim, o músico evita ser nostálgico:

“Ainda não parei de fazer música, então não posso ser muito reflexivo.”

*Ty Segall se apresenta no dia 15 de novembro na Audio, em São Paulo, com abertura de Ema Stoned e Bike. Ingressos para o show, organizado pela Associação Cultural Cecília, estão à venda via Ticket360.

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Publicado por: Pedro Hollanda (@phollanda21)

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