
Quando Olivia Rodrigo subiu ao palco para ser a atração principal da edição inaugural do festival Daisy Chain Fields, o sol já havia se posto, e qualquer um que estivesse se sentindo exausto certamente se sentiria revigorado tanto pela brisa refrescante quanto pelo show de Rodrigo. A estrela havia prometido convidados especiais e cumpriu a promessa, trazendo a fundadora do Lilith Fair, Sarah McLachlan, cujo festival inovador dos anos 90 serviu de inspiração para o Daisy Chain; Alanis Morissette, que substituiu Karen O após uma emergência familiar; e Stevie Nicks. “Sinto que estou sonhando”, disse Rodrigo para a multidão no Great Park em Irvine, Califórnia. “Este é o melhor dia da minha vida!”
Para a multidão, composta principalmente por mulheres e meninas, no festival que teve ingressos esgotados em 30 minutos, certamente parecia um sonho realizado. A programação repleta de atrações incluía pioneiras que inspiraram gerações de mulheres a pegar guitarras, bandas em ascensão e estrelas pop prontas para brilhar. Assim como o Lilith Fair, a celebração foi mais do que apenas um festival de música: foi um encontro inclusivo e muito necessário, unindo fãs e, ao mesmo tempo, apoiando causas importantes.
Na véspera do festival, Rodrigo falou sobre seus objetivos filantrópicos. “É uma verdadeira honra anunciar que estamos doando US$ 10 milhões, que serão entregues diretamente a essas 10 organizações parceiras sem fins lucrativos que vocês acabaram de conhecer”, disse em coletiva de imprensa que contou com a presença de 10 organizações que defendem os direitos das mulheres e meninas e que participavam do festival.
Entre as organizações sem fins lucrativos participantes estavam a Baby2Baby, que fornece itens de primeira necessidade para crianças carentes; a Black Mamas Matter Alliance (BMMA), que defende direitos das mães negras e oferece recursos durante e após a gravidez; o Center for Reproductive Rights, organização jurídica que defende os direitos reprodutivos e o acesso à saúde para mulheres em todo o mundo; a FreeFrom, que trabalha para enfrentar a violência de gênero, fornecendo auxílio às sobreviventes; a Jhpiego, que oferece cuidados de saúde essenciais para mulheres e famílias em todo o mundo; o John Hopkins Center for Indigenous Health, que promove a equidade em saúde para comunidades indígenas em todo o mundo; a National Domestic Workers Alliance, que defende os direitos das trabalhadoras domésticas; o National Institute for Reproductive Health, que trabalha para promover a saúde reprodutiva para todos nos níveis estadual e local; o National Women’s Law Center, que luta pela justiça de gênero na esfera jurídica; e a Planned Parenthood, que trabalha para proteger, fornecer e expandir o acesso a cuidados e educação em saúde sexual e reprodutiva. A receita líquida do evento será destinada ao Daisy Chain Fields Fund, que beneficia essas organizações sem fins lucrativos.
Ao descrever a forma como a música, a comunidade e a ação se uniam no Daisy Chain, uma palavra surgiu com frequência na coletiva de imprensa: “alegria”. E esse sentimento era palpável em todo o local no sábado, 29.
Filas se formaram do lado de fora do Daisy Chain Reaction, área onde as organizações sem fins lucrativos convidavam os participantes a conhecerem suas causas enquanto participavam de atividades manuais, como montar guirlandas de margaridas e fazer coroas de flores. Várias fãs disseram que foram atraídas para o evento por sua admiração por Rodrigo, mas também porque desejam um mundo melhor para mulheres e meninas. Alannie, de 18 anos, diz que, para a sua idade, o preço do ingresso era um investimento considerável, mas depois de entender o propósito por trás do festival, ela quis participar. “Eu vejo isso como um propósito, doar meu dinheiro para todas essas fundações”, afirma.
Um trio de mulheres filipinas na faixa dos trinta anos — Nerissa, Christabel e Monica — também estavam entusiasmadas em apoiar as organizações. “Eu me identifico muito com as diferentes organizações que ela estava promovendo”, diz Nerissa, acrescentando que já utilizou os serviços da Planned Parenthood. Christabel complementa: “Acho lindo que a Olivia esteja criando um festival e um espaço para nos reunirmos, para realmente empoderar, promover e defender as mulheres e as organizações no Daisy Chain Reaction”. Monica abordou a questão da representatividade, dizendo: “[Olivia] é filipina, então ela está representando nosso povo, assim como a seleção de artistas incríveis que ela reuniu”.
A programação rendeu 14 apresentações e 10 horas de ótima música. Tudo começou com Quiet Light, nome artístico da cantora e estudante de medicina Riya Mahesh. Ela e suas dançarinas deslizaram suavemente pelo palco, executando movimentos de balé durante a música “Postinternetfame”, do seu mixtape de 2026, Blue Angel Sparkling Silver 2. Em seguida, Eli Miller, que se apresenta apenas com seu primeiro nome. Entre canções como “Nobody’s Girl” e “Girl of Your Dreams”, Eli transmitiu uma mensagem poderosa sobre amar o próximo, “independentemente do que ele acredite ou não”. Ela também prometeu doar para algumas das organizações participantes do evento.
“Está um calor infernal agora”, disse Rachel Chinouriri para a plateia durante sua apresentação. “O Reino Unido não é assim.” Mas Chinouriri manteve o clima animado, apresentando com entusiasmo seu delicado single de 2025, “Can We Talk About Isaac”, enquanto também mostrava músicas de seu próximo álbum, I Think I Spoke Too Soon. “É sobre meus vinte e poucos anos e perceber que eu não sou a pessoa que pensava ser”, disse. “E que posso me tornar quem eu quiser ser.”
Após sua apresentação, Chinouriri disse estar animada por participar do evento, mencionou o Lilith Fair e elogiou Rodrigo por sua inclusão em relação às ONGs parceiras. A BMMA, em particular, é muito importante para ela. “É realmente emocionante ver [Rodrigo] tomar a iniciativa, porque às vezes as mulheres negras são muito negligenciadas ou incompreendidas, especialmente na área da saúde”, disse à Rolling Stone. “Acho que esse nível de consideração foi muito gentil.”
Devon Again recebeu o convite para participar do festival na última quinta, 27, depois que o Katseye teve que cancelar sua apresentação devido a uma lesão no tornozelo de Megan Skiendiel. “Eu disse: ‘Claro que quero participar’”, contou para a plateia. Mas os fãs puderam conferir Lara Raj, Yoonchae Jeung e Skiendiel, do Katseye, que apareceram no início do show de Devon para apresentar a organização sem fins lucrativos Baby2Baby. Em seguida, Devon apresentou um set com influências country, incluindo os sucessos “Skittles” e “Cherry Cola“.
Die Spitz levou o prêmio de melhor energia no Daisy Chain. O quarteto de Austin, Texas arrasou em seu show do meio-dia, onde o sol escaldante não foi páreo para sua energia (embora tenha danificado um pouco a pintura facial). Em um dado momento, a baixista Kate Halter fez uma parada de mãos completa. O metal feminino do Die Spitz foi recebido com muito entusiasmo, tanto que a vocalista Eleanor Livingston pulou na plateia para se juntar à festa.
Em 2022, Santigold fez uma pausa nas turnês, falando à Rolling Stone sobre a “crise cultural” e os desafios econômicos e de saúde mental que afligem aqueles que vivem da música. Ela retomou os shows em 2024, embora as datas tenham sido selecionadas e por curtos períodos, o que torna qualquer oportunidade de vê-la ao vivo especial. Seu show no Daisy Chain foi pura alegria, incluindo um concurso de dança e uma série de sucessos favoritos dos fãs, como “LES Artistes“, “Lights Out” e “Disparate Youth“.
Enquanto isso, as pioneiras do punk feminista Bikini Kill, que tiraram uma pausa de algumas décadas, retornaram com força total para uma turnê de reunião em 2019. Desde então, elas mal diminuíram o ritmo. “Que presente Olivia nos deu, poder realizar este festival”, disse a vocalista Kathleen Hanna para a plateia. Como muitas das bandas presentes, o Bikini Kill aproveitou seu tempo limitado no palco para tocar seus maiores sucessos. Embora tenham tocado duas músicas de seu último álbum, Reject All American, de 1996, a banda se concentrou principalmente em canções antigas, abrindo o show com “Double Dare Ya“, do EP de 1992, antes de emendar com “This Is Not a Test“.
Quando Hanna contou a história de um homem de 40 anos que a assediou quando ela tinha 17, para apresentar a música “Feels Blind”, a plateia ficou absorta — “Esta é a plateia mais participativa que já vi na minha vida”, disse ela. Encerrando com “Suck My Left One” e “Rebel Girl”, Hanna cantou com voz rouca e dançou pelo palco, lembrando ao público exatamente por que essa banda influenciou uma geração de mulheres — e foi fundamental para que um festival como esse sequer existisse.
Mitski estava sentindo o espírito comunitário durante seu show no final da tarde, dizendo várias vezes ao público que amava “cada um de vocês”. Ela já havia colocado esse amor em prática com uma série de avisos sobre o calor extremo: aconselhando os fãs a se sentarem onde estivessem se estivessem passando mal, a irem para a pista se precisassem de água e a usarem protetor solar. Claro, Mitski também fez um show estelar, que incluiu destaques de seu álbum de 2026, Nothing’s About to Happen to Me, como “Where’s My Phone?” e “That White Cat”, além de favoritas dos fãs como “Nobody”. “Acho que deveríamos fazer isso todo ano”, disse. “Pelo resto de nossas vidas vocês poderão dizer: ‘Ah, sim, eu sou fã de carteirinha do DCF’.”
As Breeders fazem parte do círculo de Rodrigo há alguns anos, tendo aberto shows para a estrela pop em várias datas da turnê GUTS. Mas a inclusão delas no festival foi parte do apelo da programação — a incrível mistura de músicas antigas e novas. O fato da vocalista Kim Deal ter subido ao palco vestindo uma camiseta de Shirley Chisholm — em referência à primeira mulher negra a servir no Congresso — fez com que a apresentação delas parecesse ainda mais conectada ao passado. Abrindo o show com “Drivin’ on 9”, de 1994, a banda incluiu outros clássicos da época original, como “Do You Love Me Now?” e “Cannonball”, além de músicas novas e inéditas, como “Alien Eyes”, que elas vêm tocando durante toda a turnê de verão.
Quando Doechii chegou ao Lollapalooza, ela roubou a cena como a principal diva do hip-hop. No Daisy Chain, ela sinalizou uma nova era: vestindo um biquíni e com o corpo coberto de maquiagem rosa-choque, ela e suas dançarinas, também pintadas de rosa, apresentaram uma coreografia incrível em um show digno de headliner, completo com um grande palco elevado, uma tela de LED e barras de metal sobre as quais Doechii fez acrobacias. Ela nos conquistou desde o início, lançando “ExtraL“, sua colaboração de 2025 com Jennie. Outras faixas em parceria — “Girl Get Up“, com SZA, e “Swamp Bitches“, com Rico Nasty — foram impactantes, mesmo que essas artistas não estivessem presentes no sábado. As misturas de Doechii também foram um sucesso: “Anxiety” sampleou “Somebody That I Used to Know”, de Gotye, e Doechii improvisou sobre “America Has a Problem”, de Beyoncé, e até mesmo incorporou “Toxic”, de Britney Spears, na mistura. Ela encerrou uma das melhores performances do dia com uma versão emocionante de “Denial Is a River”, um clássico do álbum de 2024 Alligator Bites Never Heal.
O show do Garbage enfrentou por problemas técnicos, mas a vocalista Shirley Manson manteve a calma, brincando que esse era exatamente o tipo de coisa com que a banda estava acostumada. “Uma carreira inteira feita desse tipo de perrengue”, brincou. Isso, segundo ela, era uma lição para os mais jovens na plateia: mesmo quando as coisas não saem como o esperado, o mundo continua girando. “Você não precisa ser perfeito”, disse. “Você pode errar.”
Apesar dos obstáculos, a banda apresentou clássicos dos anos 90 como “Only Happy When It Rains“, “When I Grow Up” e “Stupid Girl” (que incluiu uma breve versão de “Rebel Girl“, do Bikini Kill), além de faixas mais recentes como “There’s No Future in Optimism” e “Chinese Fire Hose“, do álbum Let All That We Imagine Be the Light (2025).
Manson fez pausas para falar com o público, elogiando a capacidade de Rodrigo de unir a plateia multigeneracional. “Estamos por aí desde antes da maioria de vocês nascer”, disse. “Então, estar incluída na programação deste festival é um privilégio imenso, e não é algo que encaramos de forma leviana.” Ela também compartilhou algumas palavras de esperança para estes tempos sombrios. “Só quero assegurar a todos vocês — porque acabei de fazer 60 anos, então sou bem velha”, brincou. “Mas se vocês continuarem seguindo em frente, um passo de cada vez, posso garantir que é como colocar moedas em um cofrinho. Cedo ou tarde, vocês constroem a vida que desejam.”
No final do ano passado, Chappell Roan falou sobre o que imaginava para 2026. Ela disse que seria “o ano de cuidar de mim e dos outros e de me envolver de verdade em uma comunidade que pareça real, não virtual. Fazer trabalho voluntário localmente e doar dinheiro para organizações em que acredito”. O Daisy Chain era o lugar perfeito para isso, e a plateia explodiu em aplausos quando Roan surgiu no palco por volta das 19h, vestindo um conjunto lilás e botas combinando.
Embora o calor escaldante do dia já tivesse diminuído, “Hot to Go!” ainda parecia incrivelmente apropriada. Roan arrasou com outros sucessos de seu álbum de estreia de 2023, The Rise and Fall of a Midwest Princess, incluindo “Red Wine Supernova”, “Pink Pony Club” e “Casual”, além da joia “Good Luck, Babe! ” e seu single mais recente, “The Subway”. Rodrigo falou sobre Roan à Rolling Stone em 2024: “Lembro-me dela entrando no estúdio um dia e simplesmente dizendo: ‘Não me importo mais com o que as pessoas dizem. Se eu gosto, então está bom’”, disse Rodrigo. “Eu percebi que ela estava falando sério. Essa é a magia dela.”
María Zardoya gravou o álbum de estreia de seu projeto solo, Not for Radio, em uma casa no interior do estado de Nova York, em pleno inverno, cercada por neve e gelo. O local do Daisy Chain não poderia ser mais diferente. Mas Zardoya, mais conhecida como vocalista da banda The Marias, trouxe um arrepio à plateia com algumas faixas de Melt e de seu novo EP, Bloom. Talvez tenha sido o cenário com temática de floresta, sobre o qual ela parecia flutuar, ou o tema agridoce, ou talvez tenha sido simplesmente o fato de o sol finalmente ter se posto, mas a apresentação de Zardoya ofereceu um momento de catarse. Com músicas como “Puddle”, “Swan” e “My Turn”, ela lembrou ao público que também é normal se sentir um pouco triste às vezes.
Em seguida, foi a vez de Rodrigo, que encerrou a noite com uma apresentação que, apropriadamente, contou com a participação de McLachlan. A dupla cantou o sucesso de 1997, “Building a Mystery”, e dedicou “Angel” a Dolly Parton, que faleceu em 25 de agosto.
Rodrigo se juntou a Morissette para uma versão eletrizante do clássico “Ironic”. A filantropa Melinda French Gates acompanhou Rodrigo e prometeu dobrar os US$ 10 milhões doados. A última convidada de Rodrigo foi Nicks. Juntas, elas apresentaram uma performance arrebatadora de “Landslide ”. “Ela me lembra de mim mesma, quando eu tinha a idade dela, cem anos atrás”, disse Nicks sobre Rodrigo. “E estou impressionada que ela tenha conseguido fazer tudo isso. Porque é muito difícil — vocês não têm ideia — organizar tudo isso com todas essas pessoas. E ela conseguiu, com essa graça.” Também houve muitos clássicos da própria Rodrigo, incluindo “Bad Idea Right?”, “Good 4 U” e “Drivers License”, o sucesso que nos deu uma prévia da superestrela que ela se tornaria, cada um deles levando o público a cantar junto em coro. E Rodrigo também presenteou a plateia com a estreia ao vivo do recente single “Serena Joy”.
Quando Rodrigo anunciou o Daisy Chain Fields, as expectativas eram altas, já que os fãs esperavam um festival que cumprisse o prometido no palco e que honrasse sua missão de empoderar mulheres e meninas. O sábado superou essas expectativas. E parece que Mitski tinha razão quando sugeriu que fizéssemos isso de novo: “Até o ano que vem!”, exclamou Rodrigo ao final de sua apresentação.
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Publicado por: Rolling Stone





