‘Jolene’, de Dolly Parton: as melhores versões, faixas derivadas e músicas de resposta

Dolly Parton em 1970 (Foto: Richard E. Aaron/Redferns/Getty Images)

Tudo começou com uma caixa de banco. A imortal “Jolene” de Dolly Parton — uma canção que há muito tempo é considerada um dos grandes clássicos do rock americano — foi inspirada por uma funcionária ruiva do banco que dava atenção excessiva ao marido de Parton. “Ele adorava ir ao banco porque ela lhe dava muita atenção”, disse Parton certa vez. “Eu dizia: ‘Nossa, você está passando muito tempo no banco. Não acho que tenhamos dinheiro para isso.’”

Parton escolheu o nome de duas sílabas como título depois de ser abordada por uma menina que queria um autógrafo. “Eu disse: ‘Jolene, Jolene, Jolene, Jolene… É bonito. Parece nome de música’”, relembrou Parton anos mais tarde.
Demorou um pouco para que “Jolene” conquistasse o mundo. Apesar de ter sido um sucesso número um nas paradas country logo após seu lançamento, a música sequer entrou no Top 50 das paradas pop quando Parton a lançou em 1973. Quando rendeu a Parton uma de suas primeiras indicações solo ao Grammy, em 1975, “Jolene” perdeu para uma canção chamada “A Love Song“, de Anne Murray.
Mas, nas décadas seguintes, “Jolene” tornou-se sinônimo não apenas de música country, mas da música americana em todo o mundo. Quando Beyoncé abordou a América e as músicas de suas raízes em Cowboy Carter, ela fez covers de duas canções: “Blackbird”, dos Beatles, e “Jolene”. Quando a Rolling Stone votou nas 500 Maiores Canções de Todos os Tempos, a música ficou em 63º lugar. Ela é infinitamente adaptável: quando Parton recebeu publicamente sua vacina contra a Covid-19 em 2020, ela cantou uma versão a cappella de “Jolene” com o tema da vacina em um vídeo.
Essa lista poderia ter o dobro do tamanho, mas essa é a magia de “Jolene“: ela é tanto uma canção quanto um modelo, um conjunto de peças de montar para compositores a partir das quais gerações sucessivas vêm construindo suas próprias histórias e interpretações devastadoras ao longo de mais de meio século desde seu lançamento. Que outra canção serviu como ponto de partida para uma repercussão de dois dígitos e canções derivadas, a maioria escrita por artistas que nem sequer haviam nascido quando “Jolene” foi composta? E que outra canção foi regravada por Lil Nas X, Fiona Apple, Sisters of Mercy e Olivia Newton-John?
Aqui estão 20 canções — 10 delas covers diretas de “Jolene” e 10 interpretações, variações ou respostas — que homenageiam o clássico imortal de Parton.

“Jolene”, The White Stripes (2000)

Muitos millennials fãs de rock conheceram a música de Parton através dos The White Stripes, cuja versão famosa, minimalista e melancólica, revitalizou um clássico antigo e lhe conferiu um ar de modernidade para toda uma geração. A descoberta de uma perspectiva pessoal e emocional por Jack White para contar a história também contribuiu para o sucesso da canção: “Pensei em pegar a personagem, mudar o contexto e fazer dessa ruiva minha namorada, e que ela estivesse me traindo com um dos meus amigos”, disse White à NPR. “Assim, eu conseguiria me conectar emocionalmente com a história.” — J.B.

“Diane”, Cam (2020)

O que talvez seja mais notável nessa música de 2017 da cantora country Cam é que, embora compartilhe muito pouco com a música de Parton musicalmente, ela é quase tão cativante qunto. A premissa segue o molde típico das canções de resposta a “Jolene“: ouvimos a voz de Jolene e temos uma visão comovente de suas próprias complexidades, incertezas, arrependimentos e vida emocional interior. Nesta versão da história, “Jolene” alega ignorância, insistindo que não fazia ideia de que “ele era seu homem”. “Todas aquelas noites que ele me deu”, ela canta, “eu queria poder devolvê-las a você”. Como todas as canções de resposta, “Diane” surgiu de uma profunda reverência pela original: “Ela não está ocupada sendo competitiva”, disse Cam sobre “Jolene“. “Ela não está sendo hostil. É incrível que essa música tenha sido lançada há 40 anos e ainda tenha esse tipo de conexão entre duas mulheres.” — J.B.

“Jolene”, Stephanie Urbina Jones e Honky Tonk Mariachi (2018)

Parte da magia de “Jolene” reside no fato de que, apesar de sua sonoridade característica, dedilhada e inspirada no folk, ela pode ser recriada em inúmeros estilos e gêneros. E como Dolly Parton sempre foi uma influência global, atraindo músicos latinos e tejanos para seu som country-pop, isso significa que a canção ganhou algumas releituras com influência mexicana ao longo dos anos. “Jolene” foi reinventada em versões de cumbia, banda e mariachi, sendo talvez a mais memorável esta interpretação de Stephanie Urbina Jones e o Honky Tonk Mariachi. Com seus metais estridentes e acordes marcantes de guitarrón, ela demonstra o quão bem a canção pode ser adaptada a esses estilos — e desde então inspirou bandas de mariachi locais a apresentarem suas próprias interpretações emocionantes. — J.L.

“Você é bonita só como uma garota de trailer”, canta Lambert nesta música country-rock inspirada em ZZ Top, de 2022. “Mas você nunca vai ser a Jolene.” A canção de Lambert é uma sátira da personagem de Dolly Parton, escrita — com Jack Ingram e Jon Randall — da perspectiva de Jolene reimaginada como o que Lambert chamou de “rainha de posto de gasolina”. “Geraldene queria ser a Jolene, mas ela nunca seria tão bonita assim”, disse Lambert sobre a música. “E nós sabíamos disso desde o início.” — J.B.

Esta versão com graves marcantes da cantora iraniana Leila Forohaur talvez seja a que contêm mais funk. Ela também apresentou a canção de Parton a um público totalmente novo em uma parte do mundo que a maioria não associaria ao leste do Tennessee: o Irã pré-revolucionário. A ideia de uma mulher cantando essa música sobre o desejo feminino pode ter sido radical na época, mas décadas depois, a versão de Forohaur se destaca como uma das interpretações mais eletrizantes e impactantes da canção de Parton já gravadas. — J.B.

Na tradição das canções de resposta a “Jolene“, muitos imaginaram o outro lado: o que Jolene poderia estar pensando, como ela poderia ter se sentido. Alguns até pediram empatia. Mas a versão de Chapel Hart, “You Can Have Him Jolene“, deixa de lado qualquer tipo de saudade ou tristeza. Em vez disso, o trio deixa Jolene ficar com aquele coitado, aquele infiel sem-vergonha. “Ele é o seu problema, boa sorte em mantê-lo em casa”, cantam as irmãs Danica e Devynn Hart e sua prima Trea Swindle. Infelizmente, o Chapel Hart entrou em hiato desde então, mas sua contribuição vibrante para o repertório continua viva. Parton também gostou, postando: “Que versão divertida da minha música, Chapel Hart! Hoje é aniversário do Carl, então acho que vou ficar com ele, e não vou contar para a Jolene que hoje é o aniversário dele.” — M.M.

Lembra quando Lil Nas X não parava de dar dicas sobre um remix de “Old Town Road” com Dolly Parton? Embora Parton tenha recusado a oferta (“Não faz sentido percorrer a mesma Old Town Road”, disse ela), ela apoiou amplamente o sucesso country rebelde do cantor em 2019. Dois anos depois, Lil Nas X retribuiu o elogio com esta versão melancólica e discreta da música clássica de Parton, transformando-a em um blues desolado do deserto. “Dolly canta com desespero”, como apontou um comentarista do YouTube. “Ele canta como se já estivesse derrotado.” — J.B.

Que personagem da música popular foi mais analisada do que Jolene? Essa canção pop-rock de 1995, de Kirsty MacColl (mais conhecida como a vocalista que responde a Shane MacGowan em “Fairytale of New York”), pode ser a primeira a contar uma história da perspectiva de Jolene. “Eu simplesmente não achava que existissem muitas músicas em que a terceira pessoa nesse triângulo amoroso eterno tivesse a chance de responder”, disse MacColl a um jornal em 1995. Em sua versão da música, Jolene tem mais do que alguns arrependimentos: “Ela está envergonhada”, disse MacColl, “porque ele não vale a pena”. — J.B.

Não é fácil capturar a dor e o sofrimento que Parton transmite em “Jolene”, mas Fiona Apple, ao lado de Sara e Sean Watkins e Sebastian Steinberg no the Largo, em Los Angeles, consegue fazê-lo com perfeição. Tão magistral como intérprete quanto como compositora, Apple transmite a emoção da voz para o rosto, demonstrando raiva e tristeza num só gesto. A performance com cordas mantém tudo sombrio, como se devêssemos estar sempre olhando por cima do ombro, à espera de uma ruiva estonteante que possa surgir a qualquer momento. — M.M.

A apresentação ao vivo deste grupo de britânicos mostra que, 30 anos após sua composição, a joia pop de Dolly Parton se tornou, entre muitas outras coisas, um texto fundamental do movimento folk-stomp do início dos anos 2000. Mumford & Sons posteriormente apresentou “Jolene” em versão solo acústica, enquanto Laura Marling, por sua vez, é uma grande fã de Parton e já gravou diversas de suas canções ao longo dos anos. Apresentadas em conjunto, elas nos lembram que o ritmo pulsante da música (executado pelo baterista de Nashville, Kenny Malone) é tão essencial para a narrativa desesperada de Parton quanto qualquer outro elemento. — J.B.

Embora a versão mais famosa de Brandi Carlile de “Jolene” seja talvez a que ela apresentou ao lado de Amanda Shires, Maren Morris, Natalie Hemby (também conhecida como The Highwomen) e da própria Dolly Parton no Newport Folk Festival, ela já canta a música há mais de uma década. Carlile cresceu cantando música country, e suas harmonias com as gêmeas Hanseroth são simplesmente perfeitas: Parton até retribuiu o favor ao gravar “The Story” para o álbum Cover Stories: Brandi Carlile Celebrates 10 Years of the Story (An Album to Benefit War Child UK). “Antes de conhecê-la, eu a admirava porque ela se arriscou e me aceitou (e a todos nós) por sermos gays em uma época em que ela não precisava dizer nada”, escreveu Carlile no Instagram após a morte de Parton. “Ela nunca hesitou em aceitar ninguém por quem eram e por quem estavam destinados a ser.” — M.M.

Esta canção de 2014 da cantora e compositora indie-folk do Colorado, Esmé Patterson, é uma contribuição essencial entre as diversas intervenções feministas em “Jolene“. “Minha Jolene diz à personagem de Dolly que ela merece algo melhor e que deveria encontrar um homem que retribua seu amor”, disse Patterson ao The Guardian. O resultado é uma narrativa cativante que se inspira na versão original de Parton, ao mesmo tempo que explora novos territórios musicais. A canção faz parte do álbum Woman to Woman, um projeto fascinante de Patterson no qual ela compõe músicas sob a perspectiva de diversas figuras femininas famosas da música pop, incluindo Eleanor Rigby, dos Beatles, Billie Jean, de Michael Jackson, e Caroline, dos Beach Boys. — J.B.

Dolly Parton inspirou uma geração de artistas, inclusive aqueles que fazem música em espanhol. Em 2020, Chiquis Rivera — filha da saudosa ícone da música tejana, Jenni Rivera — decidiu mostrar o quanto Parton a influenciou, juntando-se a Becky G e lançando uma versão em espanhol de “Jolene”, com uma batida de cumbia irresistivelmente cativante e sincopada. “Dolly é um ícone da música e um exemplo a ser seguido para as mulheres, e é uma honra cantar essa música em espanhol”, disse Rivera à Telemundo na época. Becky acrescentou: “A música country sempre esteve presente em minha casa, com as influências mexicanas, e nossa ‘Jolene’ é isso. Tem a essência de Dolly com um toque nosso.” — J.L.

Uma das últimas gravações em que Parton contribuiu em vida foi esta regravação de “Jolene” feita por uma promissora cantora e compositora country. Kelli Belles, que grava como Belles, imagina o tipo de conquistador que a Jolene do título poderia ter gerado, caso tivesse tido um filho. “Ele ainda me tem em seus braços enquanto segura outra pessoa”, ela canta. “Agora eu sei como Dolly se sentiu.” Parton gostou tanto da ideia que resolveu participar da música com alguns vocais. “Achei muito inteligente”, disse Parton. “Ninguém nunca tinha pensado nisso dessa forma.” — J.B.

Três anos após o lançamento da música por Parton, a cantora pop internacional Olivia Newton-John deu a “Jolene” um público ainda maior e mais diversificado com sua reverente versão. Sua interpretação fez sucesso no mundo todo, ajudando a impulsionar o apelo global de “Jolene“, que chegou às paradas musicais em países tão distantes quanto o Japão. Newton-John manteve-se ligada à faixa por toda a vida. A última música que ela gravou antes de sua morte em 2022, aliás, foi um dueto de “Jolene” com Parton. — J.B.

Mindy Smith era uma artista relativamente desconhecida de Nova York e recém-chegada a Nashville quando recebeu a oportunidade de gravar uma versão de “Jolene” para uma coletânea de Dolly Parton de 2003, intitulada Just Because I’m a Woman: The Songs of Dolly Parton. Na época, Smith fazia bicos pela cidade e frequentemente se apresentava em rodas de compositores organizadas por Daniel Tashian, que mais tarde produziu o álbum Golden Hour, de Kacey Musgraves. A versão de Smith é mística e assombrosa, brincando com a cadência e a melodia o suficiente para aumentar a tensão, mas sem nunca se afastar muito da original. Parton e Smith tocaram a música juntas no programa de Jay Leno. “Acho que a personagem principal é realmente a pessoa que canta sobre Jolene”, disse Smith. “Jolene é uma bagunça. Ela simplesmente rouba coisas.” — M.M.

Levou um instante para a cantora do duo Sugarland perceber a qual música estava se inspirando quando começou a compor — com Butch Walker — esta canção sob a perspectiva de uma mulher que denuncia seu papel como amante. Eventualmente, tudo fez sentido: “Olhei para ele e disse: “Esta música deveria se chamar ‘The Ballad of Jolene’ (ou ‘A Balada de Jolene’, em português), entre parênteses”, lembrou Nettles. “Tudo o que ouvimos de Dolly é a sua perspectiva como narradora… Mas e se Jolene não quiser ficar com o homem só porque pode? Nunca saberemos.” A canção de Nettles é uma peça fundamental no cânone das músicas de resposta a Jolene. — J.B.

A versão de Beyoncé da música, lançada em 2024, tornou-se indiscutivelmente a interpretação mais conhecida de “Jolene“. Sua interpretação fica entre um cover tradicional e uma releitura, com letras reescritas: “É preciso mais do que beleza e olhares sedutores para se interpor entre uma mulher e um homem feliz”, ela canta, transformando o desespero de Parton em justa indignação. O cover foi controverso, mas Beyoncé, tanto quanto os outros artistas desta lista, realmente fez a música de Parton sua: “Eu sei que sou uma rainha, Jolene”, canta Beyoncé. “Ainda sou uma crioula da Louisiana.” Dolly Parton, por sua vez, aprovou: “Adorei o que ela fez com a música”, disse. — J.B.

“Jolene (But From Jolene’s POV),” Brielle Anderson (2024)

Este spin-off é bastante autoexplicativo. A homenagem de Anderson a “Jolene” segue um caminho diferente de todos os outros, usando a melodia clássica da canção como uma oportunidade para homenagear as mulheres que a escreveram. “Você realmente acha que eu quero roubar seu homem?”, canta Anderson como Jolene, assegurando à narradora da canção original que ela não está atrás do seu amado. “Eu só quero te venerar, Dolly.” Essa é meio que a essência de Anderson: seu Spotify está repleto de canções sob a perspectiva de quem foi tema de vários sucessos pop, de “Good Luck, Babe“, de Chappell Roan, a “I Kissed a Girl“, de Katy Perry. — J.B.

Quem não gostaria de ouvir uma versão gótica de “Jolene”? Parton nunca comentou sobre essa interpretação sombria da música, mas é difícil imaginá-la não gostando: os sintetizadores arrepiantes, os loops de bateria, as guitarras sinistras, o drama crescente na interpretação vocal à medida que a faixa avança. O cover do Sisters of Mercy se tornou presença constante nos shows da banda britânica de rock dos anos 80, e por um bom motivo: demonstra que a essência musical da canção de Parton é tão sólida que funciona em praticamente qualquer gênero. — J.B.
+++ LEIA MAIS: Beyoncé homenageia Dolly Parton e relembra colaboração em ‘Cowboy Carter’: ‘Estrela-guia’

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Publicado por: Rolling Stone

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