
Jorja Smith sempre teve uma quedinha por música eletrônica. Já era perceptível em “On My Mind”, um dos primeiros grandes momentos da carreira dela puxando pro two-step, depois em “Get It Together”, de Drake, e no remix de “Slow Down”. Mais recentemente, esse interesse só cresceu: veio o remix de “Little Things” com Gypsy Woman, e em “The Way I Love You” ela já deixava claro o quanto se sentia à vontade nesse território. Mas até então, isso sempre foi tempero pontual, prova de versatilidade, nunca o prato principal. Ela preferia manter o centro da obra no R&B, guardando o flerte eletrônico para uma ou outra faixa por disco. Em What Are The Odds, essa lógica se inverte de vez. O que começou como paquera virou um álbum inteiro dedicado à pista de dança.
Com P2J na produção, o resultado é coeso: UK garage, funky house, afro house e 2-step desfilam por 12 faixas sem que o conjunto perca identidade. Ao longo dos 38 minutos, a voz de Jorja continua grave e reconhecível na hora, só que agora desliza sobre percussão física e sintetizadores densos, em vez de flutuar em arranjo minimalista.
“For Life” abre o álbum encarando um tema pesado, o desgaste de amar alguém em situação de dependência, sobre uma batida que impede a melancolia de virar estagnação. A faixa-título, que chega na sequência, mantém o embalo e ainda mostra Jorja flertando com um flow mais falado, quase rap, algo raro no repertório. Mais para frente, “Pretend” acerta em cheio ao construir uma narrativa de decepção e autovalorização sobre um groove hipnótico, e “I Lied, You Lied” captura bem a sensação de um relacionamento que já terminou, mas ainda ocupa espaço na cabeça — com uma produção quase ansiosa, que reforça o clima.
Mas quem realmente rouba a cena é “Dancing”. A música transforma a nostalgia de um relacionamento antigo em convite direto para a pista, com um refrão simples e cantarolado (que funciona, e muito, para que ele grude na sua cabeça) esse é o momento mais leve do disco — e também o mais gostoso de ouvir, sem nenhum peso emocional puxando tudo para baixo.
Os feats, com Devlin em “This City” e Wizkid em “Alive”, cumprem seu papel sem roubar o brilho de Jorja, mas talvez seja exatamente aí que esteja o pequeno problema do álbum. Falta um toque extra em algumas faixas, algo que aparece com mais clareza quando ela surge como convidada no trabalho de outras pessoas. “Crush”, com AJ Tracey, e “Coming Home”, lançada com Odeal em julho deste ano, mostram uma Jorja mais afiada, mais provocadora, do tipo que ela raramente se permite ser dentro do próprio disco. Não que What Are The Odds seja sem graça, longe disso; mas dá para sentir que ela ainda guarda uma versão mais ousada de si mesma para quando está em território alheio.
No fim, What Are The Odds não é uma reinvenção repentina. É a conclusão natural de um namoro que já durava anos, faixa por faixa, feat por feat, até virar impossível de ignorar. Jorja Smith nunca escondeu essa quedinha. Só esperou o momento certo pra assumir de vez.
No fim, What Are The Odds é a conclusão natural de um namoro que já durava anos, faixa por faixa, feat por feat, até virar impossível de ignorar. O que impressiona é a naturalidade com que Jorja faz essa mudança, em nenhum momento o disco soa como cantora de R&B forçando a barra pra parecer relevante num momento em que música de pista voltou a dominar o mainstream. A coerência entre voz e produção é o que sustenta esse argumento, P2J constrói base física e agitada sem nunca abafar o timbre grave que sempre foi a marca registrada dela, e o resultado é um álbum que consegue ser dançante sem virar descartável.
Também vale notar a duração enxuta como escolha inteligente: com pouco menos de 40 minutos, o disco termina antes de a fórmula rítmica começar a cansar, mesmo mantendo uma identidade sonora bastante constante do início ao fim. É um projeto que sabe exatamente o tamanho que precisa ter pra funcionar.
Jorja Smith nunca escondeu essa quedinha por música eletrônica. Só esperou o momento certo, e a segurança certa, pra transformar isso em compromisso inteiro.
Nota: ★★★★
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Publicado por: Kadu Soares (@kadusoares__)







