Em 1999, o Bananada nasceu para resolver um problema bastante específico: criar um palco para as bandas independentes de Goiânia. Vinte e seis anos depois, o projeto movimenta diferentes espaços da cidade, conecta artistas de todo o Brasil e estabelece pontes com outros mercados. O caminho entre esses dois momentos explica por que hoje o Bananada é muito mais do que um festival.
Para entender essa transformação, o Mapa dos Festivais conversou com Fabrício Nobre, fundador e diretor artístico do projeto.
Tudo começou porque faltava vitrine
Quando o Bananada surgiu, Goiânia já tinha uma cena de rock e música independente consolidando seus primeiros passos. O problema, segundo Fabrício, nunca foi a falta de artistas.
“Quando o Bananada nasceu, Goiânia era conhecida como terra do sertanejo. Só que por trás desse rótulo havia uma cena de rock e música independente pulsando forte. A gente tocava para nós mesmos.”
Bandas ensaiavam, gravavam e circulavam entre si, mas ainda encontravam poucas oportunidades para alcançar novos públicos. Foi dessa necessidade de dar visibilidade à produção local que nasceu o festival.
Uma ideia simples que ganhou novas dimensões
Fabrício resume o início do Bananada como uma ideia “simples, quase teimosa”.
“A ideia inicial do Bananada era simples, quase teimosa: um festival para divulgar minha banda e as bandas independentes de Goiânia. Sem grande produção, sem patrocínio real — a gente tinha vontade.“
O que começou como um encontro para cerca de 200 pessoas carregava um objetivo bastante direto: fortalecer uma cena que já existia, mas ainda precisava de espaço para crescer.

O momento em que Goiânia entrou no circuito
A transformação aconteceu aos poucos, mas houve um momento em que ficou claro que o Bananada havia ultrapassado os limites da cena local.
“Quando bandas de fora começaram a querer vir para Goiânia, quando a imprensa nacional passou a cobrir o festival, quando gente de outros estados começou a viajar só para estar aqui.”
Para Fabrício, foi nesse momento que o festival deixou de ser apenas um encontro entre bandas independentes da cidade e passou a inserir Goiânia em um circuito muito maior de circulação musical.
Hoje, o Bananada integra o calendário oficial da capital goiana e faz parte da construção da identidade cultural da cidade, ocupando um lugar que parecia improvável nas primeiras edições.
Quando o festival virou um ecossistema
Ao longo dos anos, o Bananada deixou de concentrar sua programação em um único espaço e passou a ocupar bares, teatros, centros culturais e diferentes pontos de Goiânia. Essa descentralização mudou a relação do público com o festival e também da cidade com o próprio evento.
Mas a principal transformação aconteceu nos bastidores.
“A música é a porta de entrada, não o destino final.” – Fabrício Nobre
Hoje, além da programação musical, o Bananada reúne festas, showcases, gastronomia, intercâmbios entre festivais, curadoria, formação de profissionais e uma rede de artistas, produtores e espaços culturais que permanece ativa durante todo o ano.
É justamente essa estrutura permanente que faz Fabrício definir o projeto como um ecossistema cultural.
Um impacto que vai além dos palcos
Ao olhar para a trajetória do festival, Fabrício acredita que um dos principais legados do Bananada não está apenas na quantidade de artistas que passaram por seus palcos.
“O Bananada não formou só line-up, formou gente que hoje sustenta a cena cultural de Goiânia por dentro.”
Ao longo de mais de duas décadas, o projeto ajudou a formar produtores, técnicos, profissionais do mercado fonográfico, artistas visuais e organizadores de eventos que hoje ocupam diferentes espaços dentro da cadeia cultural.
Esse trabalho também acontece por meio de iniciativas que muitas vezes passam despercebidas pelo público, como a curadoria compartilhada com outros festivais, a circulação de artistas entre diferentes eventos e o fortalecimento de redes de colaboração que continuam funcionando mesmo quando o festival não está acontecendo.
De Goiânia para o mundo
Essa lógica de conexão também orienta os próximos passos do projeto.
Uma das iniciativas mais recentes é a parceria com o Psicotrópicos Festival, realizado em Berlim, que amplia a circulação de artistas brasileiros na Europa e fortalece o intercâmbio entre diferentes mercados.
Segundo Fabrício, essa aproximação representa a continuidade de um trabalho que o Bananada já desenvolve há anos em eventos internacionais, como SXSW (Estados Unidos), The Great Escape (Reino Unido), Primavera Sound (Espanha) e MIL Lisboa (Portugal).
Muito além dos dias de festival
No fim da conversa, pedimos que Fabrício definisse o Bananada sem usar a palavra “festival”.
A resposta resume bem a trajetória construída desde 1999:
“É um ecossistema que junta música, gente e cidade para fazer cultura acontecer o ano inteiro — e que, uma vez por ano, transborda pelas ruas de Goiânia.”
Talvez seja essa a principal mudança dos últimos 26 anos. O Bananada continua reunindo pessoas em torno da música, mas hoje essa rede extrapola os dias de programação e continua criando encontros, formando profissionais e conectando territórios durante o ano inteiro.
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