Brasil articula integração do Mercosul e Chile para criar uma cadeia regional de minerais críticos

Brasil articula integração do Mercosul e Chile para criar uma cadeia regional de minerais críticos

O governo brasileiro iniciou uma articulação com os países do Mercosul e o Chile para desenvolver uma cadeia regional de minerais críticos, considerados estratégicos para a transição energética, a indústria tecnológica e a segurança econômica. A iniciativa pretende aproveitar de forma coordenada as diferentes reservas minerais existentes na América do Sul e avançar além da simples exportação de matérias-primas, buscando ampliar o processamento e a industrialização dentro da própria região.

A estratégia começou a ganhar forma com um acordo de cooperação técnica entre o Ministério de Minas e Energia do Brasil e o Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF). O convênio, assinado em 6 de agosto, terá duração inicial de 12 meses e prevê a realização de estudos destinados a identificar recursos minerais, capacidade produtiva, demanda internacional e oportunidades de investimentos.

O projeto deverá produzir um mapeamento regional dos minerais críticos e estratégicos, além de analisar como os diferentes países podem complementar suas capacidades. A proposta também prevê uma base de dados compartilhada, estudos sobre os marcos regulatórios nacionais e a identificação de obstáculos que atualmente dificultam investimentos e projetos que atravessem as fronteiras.

Um dos objetivos mais importantes é projetar a demanda por esses minerais até 2050, período no qual a utilização de tecnologias de baixo carbono deverá ampliar a necessidade de matérias-primas utilizadas em baterias, veículos elétricos, redes de transmissão, sistemas de armazenamento de energia e equipamentos de geração renovável.

A América do Sul possui uma combinação particularmente relevante de recursos. Chile e Argentina são grandes produtores de lítio e cobre; a Bolívia possui enormes reservas de lítio; enquanto o Brasil se destaca pela diversidade mineral, incluindo nióbio, grafite, níquel e terras raras, além de possuir potencial em cobre e lítio. Essa complementaridade é justamente uma das bases da proposta de integração.

O Brasil pretende utilizar essa diversidade para mudar sua posição dentro das cadeias internacionais de produção. Em vez de concentrar a atividade na extração e exportação de minério bruto ou pouco processado, a estratégia busca atrair etapas de beneficiamento, transformação e fabricação de produtos de maior valor agregado.

Essa mudança tem importância econômica e geopolítica. Minerais críticos passaram a ser considerados recursos estratégicos pelas grandes potências porque estão diretamente relacionados à fabricação de tecnologias essenciais. A concentração da produção mundial em poucos países cria riscos de abastecimento e aumenta a disputa internacional pelo acesso às reservas.

O próprio governo brasileiro define minerais críticos e estratégicos como recursos essenciais para a economia, a soberania, a segurança alimentar e a transição energética, especialmente quando existem riscos de interrupção do fornecimento ou dependência externa.

Nesse cenário, uma cadeia integrada entre os países sul-americanos poderia aumentar o poder de negociação da região. Em vez de cada país atuar isoladamente como fornecedor de determinados minerais, a proposta é combinar reservas, infraestrutura, capacidade industrial, conhecimento tecnológico e mercados consumidores.

O projeto também prevê a elaboração de uma carteira preliminar de projetos considerados estratégicos, que poderá servir para orientar futuros investimentos públicos e privados. Especialistas e representantes dos países envolvidos deverão participar de oficinas técnicas para avaliar os resultados dos estudos e definir prioridades.

A iniciativa não parte do zero. Brasil, Chile e outros países latino-americanos já vêm discutindo estratégias nacionais para minerais críticos e formas de aumentar a cooperação regional. Em julho, representantes desses países participaram de debates coordenados pela CEPAL e pelo Foro Intergovernamental sobre Mineração, Minerais, Metais e Desenvolvimento Sustentável justamente para compartilhar experiências sobre políticas para o setor.

No caso brasileiro, a dimensão do potencial mineral também está sendo detalhada. Um diagnóstico divulgado pela Agência Nacional de Mineração mostrou que a Amazônia Legal concentra uma parcela significativa do valor produzido pelo setor de minerais estratégicos, embora ainda exista grande potencial a desenvolver em substâncias como cobalto, terras raras e potássio.

A integração com o Chile também possui uma dimensão estratégica. O país é um dos principais produtores mundiais de cobre e lítio, dois minerais fundamentais para diferentes tecnologias associadas à eletrificação e à transição energética. Uma articulação regional poderia aproximar as áreas produtoras dos centros industriais e logísticos brasileiros e de outros países do Mercosul.

Para o Mercosul, a iniciativa amplia o debate sobre integração econômica para além do comércio tradicional. Energia, mineração, tecnologia e industrialização podem se transformar em novos eixos de integração regional, especialmente diante da crescente disputa internacional por matérias-primas estratégicas.

A proposta também pode abrir espaço para investimentos em infraestrutura, transporte, energia e processamento mineral. Entretanto, para que isso aconteça, será necessário superar diferenças regulatórias, melhorar a logística regional e estabelecer regras capazes de oferecer segurança aos investidores sem reduzir os padrões ambientais e sociais.

O desafio é especialmente grande porque transformar reservas minerais em uma cadeia industrial exige muito mais do que possuir jazidas. São necessários capital, tecnologia, energia, infraestrutura, mão de obra especializada e capacidade de processamento. Sem esses elementos, a região continuará principalmente como fornecedora de matérias-primas para indústrias instaladas fora da América do Sul.

O acordo entre o Brasil e a CAF pretende justamente identificar onde estão essas limitações e quais projetos poderiam ajudar a superá-las. O horizonte de 2050 permite que o planejamento considere não apenas a demanda atual, mas também a transformação prevista para os setores de transporte, energia e indústria.

A iniciativa coloca os minerais críticos no centro de uma nova etapa da integração sul-americana. Se os estudos avançarem para projetos concretos, Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai poderão explorar suas diferentes vantagens de maneira coordenada, aumentando a participação regional em cadeias globais de maior valor agregado.

Mais do que uma política de mineração, a proposta representa uma tentativa de transformar a riqueza mineral da América do Sul em capacidade industrial, tecnológica e econômica própria. O resultado dependerá da capacidade dos países de coordenar políticas, reduzir barreiras regulatórias e criar projetos capazes de transformar grandes reservas naturais em produção, empregos, tecnologia e maior autonomia estratégica para a região.

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