
Imagine o som do Iron Maiden com brasilidade. É nessa combinação que a Zona Árida encontra sua identidade, unindo o peso e as melodias do heavy metal tradicional a elementos da cultura nordestina. O projeto de Campina Grande, na Paraíba, capitaneado pelo guitarrista Marcel Joffily apresenta seu álbum de estreia, autointitulado, já disponível nos streamings.
Para dar voz às faixas de Zona Árida, Joffily conta com os vocais de Caio D’Lira. Zona Árida também dialoga com a escola de guitarristas virtuosos como Kiko Loureiro e Edu Ardanuy.
A técnica e a sofisticação dos arranjos convivem com referências regionais, compondo uma sonoridade que encontra no heavy metal um caminho para expressar brasilidade.
O conceito de aridez atravessa as nove faixas do álbum em pouco mais de meia hora. Para além da paisagem sertaneja, o tema aparece nas relações humanas, na intolerância, na superficialidade das redes sociais e nos conflitos da mente. Astronomia, inteligência artificial e literatura também alimentam as composições, conectando questões contemporâneas à identidade nordestina.
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Com exceção de “Reset Your Life”, cantada em inglês, o repertório é composto em português. O disco reúne os singles “Magnetar” e “Vidas Secas”, lançados previamente, e sete faixas inéditas.
Do sertão à inteligência artificial
A abertura instrumental “Lázarus”, composta por Marcel Joffily em homenagem ao avô Lázaro, emociona e prepara o terreno para “Reset Your Life” que com riffs marcantes e andamento direto, critica a superficialidade das redes sociais.
Em “Magnetar”, o registro sonoro de uma colisão de buracos negros abre caminho para uma narrativa que aproxima cosmologia, viagem no tempo e amor. A música também resgata a sonoridade da New Wave of British Heavy Metal (NWOBHM), movimento que marcou o metal britânico a partir do fim dos anos 1970.
As contradições sociais ganham espaço em “Templo da Salvação”, sobre as distorções no uso da religião para atender a interesses pessoais, e em “Sobreviva”, que aborda intolerância, mudanças climáticas e tensões sociais.
É em “Vidas Secas” que a identidade regional do projeto ganha um de seus contornos mais expressivos. Inspirada na obra homônima de Graciliano Ramos, a composição encontra no peso do metal uma forma de traduzir a aridez do sertão e a luta pela sobrevivência. Literatura brasileira e heavy metal se encontram em uma construção que aproxima a realidade nordestina da linguagem musical da Zona Árida.
O single “Vidas Secas” ganhou uma capa especialmente marcante, assinada pelo artista plástico paraibano Vito Quintans, que apresenta uma releitura dark dos personagens de Vidas Secas, incluindo a icônica cadela Baleia.
Em “Tecnogod”, a inteligência artificial ultrapassa o virtual e assume o comando do mundo real. Já “Vozes”, a faixa mais pesada do álbum, mergulha na loucura e nos conflitos da mente humana.
O encerramento fica por conta da faixa-título, “Zona Árida”, que retoma a resistência diante de ambientes extremos e explora os ciclos de morte e renascimento. A composição sintetiza a proposta do disco: atravessar diferentes paisagens e inquietações, do sertão às contradições do presente, sem abrir mão da identidade regional nem da força do metal.
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O imaginário fantástico nordestino na identidade
As capas do álbum e dos singles de Zona Árida merecem atenção. Assinadas pelo ilustrador, artista plástico e diretor de arte paraibano Vito Quintans, as obras complementam a proposta musical ao explorar os universo do fantástico nordestino, com símbolos, referências culturais e narrativas visuais que dialogam com o imaginário regional, criou-se um casamente perfeito.
Rock paraibano em alta
A Paraíba tem mostrado que o rock do passado e da atualidade, seja o heavy metal ou outras vertentes pesadas, feito fora do eixo Rio–São Paulo é poderoso. Um dos exemplos mais expressivos é a Papangu, de João Pessoa, que conquistou reconhecimento nacional e internacional ao desenvolver uma sonoridade própria, combinando heavy metal, rock progressivo, jazz e referências aos ritmos nordestinos. A banda ganhou espaço em grandes festivais e na imprensa mundial.
A diversidade da cena paraibana também aparece em nomes como Zefirina Bomba, também da capital, que construiu sua identidade no punk rock com uma formação inusitada, sem guitarra, e um violão de sonoridade crua. Já o heavy metal tradicional tem representantes como o Sinal de Ataque, mostrando que a produção local não se limita a uma única vertente do rock pesado.
Essa relação entre rock e identidade nordestina tem raízes que vão além da cena contemporânea. Da cidade de Brejo do Cruz, Zé Ramalho também encontrou no rock’n’roll uma de suas influências musicais. Em 2013, essa conexão ganhou uma imagem emblemática quando o cantor paraibano dividiu o palco com o Sepultura no Rock in Rio, em uma apresentação que misturou clássicos de seu repertório, como “Admirável Gado Novo” e “A Dança das Borboletas”, à força do heavy metal. O encontro ganhou o apelido de “Zépultura” e mostrou como a música nordestina e o metal podem encontrar pontos de contato.
A Shock é frequentemente lembrada como uma das primeiras bandas brasileiras a se dedicar integralmente ao heavy metal no Brasil, surgindo poucos anos depois da também histórica Stress, do Pará. Formada em 1979, em João Pessoa, a Shock é um dos nomes mais antigos e emblemáticos do heavy metal no Nordeste brasileiro.
Zepelim e o Sopro do Cão, embora não diretamente ligada ao metal, é outra banda de Campina Grande que mistura música pesada, punk e ska e tem se revelado grande nome da atualidade do rock na Paraíba.
É nesse cenário de diferentes possibilidades para a música pesada que a Zona Árida apresenta sua própria leitura do heavy metal: uma combinação de tradição, virtuosismo e brasilidade que faz do sertão não apenas cenário, mas parte fundamental de sua identidade.
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Publicado por: Isis Correia






