3 artistas para conhecer a nova cena de Copenhague, na Dinamarca

Quem nunca ouviu falar que o frio faz bem para a criatividade? No norte da Europa, onde o sol de inverno some antes das quatro da tarde e o termômetro passa meses de cara fechada, a música virou praticamente infraestrutura básica. Quando sair de casa é um ato de coragem, a solução é chamar os amigos, abrir umas cervejas e deixar um disco rodando até alguém reclamar do volume, ou do gosto. (haha!) 

É nesse caldo que Copenhague foi se formando. E aqui já posso deixar um aviso: não espere um “som de Copenhague”, aquele pacote fechado que gravadoras adoram vender. 

O que a cidade tem pra oferecer é mais interessante: artistas que compartilham uma postura experimental, independente e sem medos na hora de misturar gêneros. 

A capital tem uma tradição sólida de música independente, punk, noise rock, post-punk, indie pop e eletrônica experimental, e nos últimos anos uma nova geração começou a vazar a fronteira e chamar atenção fora da Dinamarca, e você, provavelmente, já deve ter algum artista vindo de lá na sua playlist. 

Cultura não é gasto: é investimento!

A Dinamarca entende que investir em cultura é algo que vale a pena para o país. O dinheiro público, em forma de financiamento, bolsas e estruturas de apoio, é o que permite ao músico fazer o disco estranho, ambicioso ou impossível de vender sem precisar de um hit imediato para pagar o aluguel (que é bem caro, por sinal). E é aí que mora a diferença e explica porque a cena alternativa de lá vem tendo esse boom!

Quando o artista não precisa escolher entre a arte e o boleto, ele arrisca mais, experimenta e erra mais, e errar bastante é um método excelente para descobrir um som novo. 

Além disso, por lá também existem uma grande quantidade de casas de shows, selos pequenos, coletivos e uma cultura de colaboração que ajudam a manter o investimento público e que fazem essa roda girar.

A cidade que não cabe em uma gaveta (ou em um rótulo)

Algumas cidades do Reino Unido trilharam o seu caminho na música e criaram identidades únicas e reconhecíveis hoje no mundo todo, como Bristol, Manchester e Glasgow. Copenhague tem… um problema para mim, que estou escrevendo esse texto… é que é extremamente difícil resumir o som da cidade em um estilo. E é exatamente aí que mora a graça! 

Essas três cidades provaram que uma cena pode virar marca reconhecida no mundo inteiro, e Copenhague parece viver um momento parecido, só que sem o rótulo pronto. A força dela não está em um gênero, mas no cruzamento: música experimental, produção eletrônica, indie e cultura DIY esbarrando umas nas outras sem pedir licença.

Não por acaso, o jornal Le Monde, em matéria publicada em julho deste ano, chegou a descrever a cidade como um novo laboratório de pop. O reconhecimento internacional de Erika de Casier, Astrid Sonne e outros artistas só reforçam essa percepção. Então bora para os nomes?

Hora do play: 3 nomes de Copenhague para você conhecer!

Smerz

Antes de mais nada, um esclarecimento: a dupla Smerz é norueguesa de passaporte, mas dinamarquesa de coração. Catharina Stoltenberg e Henriette Motzfeldt se conheceram ainda adolescentes e, em vez de ficarem esperando a vida acontecer, se mudaram para Copenhague para estudar.

Em 2016, com cabeça cheia de música eletrônica (o que é bem comum para quem cresce e vive no norte europeu), elas começaram a brincar com sintetizadores, batidas e vocais processados, e o resultado foi uma mistura que não pede licença: pop, techno, R&B e experimentalismo dividindo o mesmo espaço. A britânica XL Recordings percebeu o potencial rápido e assinou com a dupla em 2017. Em 2021 veio o Believer, o primeiro álbum, que consolidou a identidade das duas e mostrou ao mundo que aquilo não era fase passageira.

Em 2025, a dupla voltou com Big City Life, o segundo disco, e aqui entra um detalhe que eu – particularmente – adoro e vale a pena ser mencionado: ele saiu pelo Escho, um selo de Copenhague, o mesmo que lançou o EP de estreia delas em 2016. Selo pequeno, ecossistema local funcionando, que são derivados da cultura de colaboração que existe na cena musical de lá, como eu citei lá em cima.

O álbum fala de relacionamentos, solidão e vida urbana com melodias pop, arranjos eletrônicos e composições experimentais, e a Pitchfork gostou tanto que deu o selo de Best New Music, um carimbo que nem todo disco esquisito tem a sorte de conseguir! Você deve saber bem disso. 

Sem se prender a gênero nenhum, Catharina e Henriette viraram referência de uma geração que está colocando Copenhague no mapa da música alternativa internacional. Se alguém perguntar onde fica esse mapa, por favor, aponte para elas!!!

Bom, e se você gostou da dupla, tenho uma notícia boa: já já vamos estar vendo elas ao vivo por aqui. Smerz se apresenta pela primeira vez no Brasil no Primavera Sound, no domingo, 6 de dezembro, em São Paulo. A gente já está ansioso para ver como essa mistura introspectiva soa ao vivo. Se o show tiver metade da estranheza do disco, já vale o ingresso. 

  • You got time and i got money: talvez a melhor escolha para conhecer esse universo que essas garotas criaram. Pop alternativo, sintetizadores e vocais delicados. Aqui elas mostram como conseguem criar algo acessível sem abrir mão da experimentação. 
  • Believer: Essa vem de uma fase mais experimental da dupla. É interessante para entender como elas construíram uma identidade própria dentro do pop eletrônico.

Snuggle

Se a Smerz é a Copenhague que passa a noite no clube, a Snuggle é a Copenhague que fica em casa, de meia, com as cortinas fechadas e o disco rodando. Eu defendo as duas com a mesma convicção, e você vai entender o porquê.

Por trás do nome fofo tem gente com currículo muito bom: Andrea Thuesen, vocalista do trio Baby In Vain, e Vilhelm Strange, ex-Liss. Os dois se conheceram no Rhythmic Music Conservatory, a escola que virou ponto de encontro da nova geração alternativa da cidade e a amizade nasceu de longas jam sessions. Em 2023, apresentaram as primeiras composições no EP Calendula, apostando em dream pop, shoegaze, guitarras distorcidas e vocais delicados, com uma melancolia que gruda.

O reconhecimento internacional veio com Goodbyehouse, o primeiro álbum, lançado em setembro de 2025 pelo Escho, o mesmo selo da Smerz, o que já começa a parecer menos coincidência e mais critério de curadoria, viu só? 

O disco nasceu de uma fase de mudanças: o café onde Andrea trabalhou por quase uma década fechou, a casa onde Vilhelm cresceu foi vendida e ainda sobraram uns términos de namoro pelo caminho. Despedidas, amadurecimento e relacionamentos viraram canções que oscilam entre a delicadeza do dream pop e a intensidade do shoegaze, e nisso a Pitchfork e a Clash prestaram atenção. 

Esse ano a dupla esteve na programação do Primavera Sound de Barcelona e do Roskilde Festival, na Dinamarca. Não duvide de mim: depois que apertar o play, me conta se não deu vontade de fechar as cortinas (e de abrir um bom vinho). A moral da história é a mesma deste texto: escola boa, selo pequeno e muita jam session também são produtos de exportação e vale a pena serem ouvidos. 

  • Woman Lake: A faixa mais escutada da dupla e um bom pontapé para conhecê-los. Em uma atmosfera cinematográfica e melancólica, com guitarras envolventes e melodias que remetem ao indie dos anos 1990, ela fala sobre sobre lembranças de lugares nunca visitados em uma reflexão delicada sobre afeto, ausência e saudade.
  • Calendula: Faixa-título da primeira EP da dupla, é ideal para conhecer a sonoridade inicial da Snuggle. Com guitarras atmosféricas, vocais delicados e uma produção que equilibra elementos orgânicos e experimentais.

Fine

Fine, em inglês, é a resposta que a gente dá quando está tudo menos bem, certo? Mas a Fine de Copenhague prova que o nome engana: Fine Glindvad Jensen é cantora, compositora, produtora e, ao meu ver, uma das vozes mais interessantes da cena da cidade.

Antes de seguir sozinha, ela passou cerca de uma década como vocalista do trio de electropop CHINAH. Também estudou no Rhythmic Music Conservatory (olha a escola de novo), a mesma de Smerz, Astrid Sonne e ML Buch, e a essa altura já dá para desconfiar que o conservatório devia cobrar comissão pela cena inteira. 

O recado também chegou fora da bolha: ao lado de Erika de Casier, Fine ajudou a escrever três faixas do EP Get Up, do grupo sul-coreano NewJeans, o mesmo disco em que a Smerz assina a produção de “ASAP”. Sim, a cena de Copenhague foi parar no K-pop, e ninguém pediu licença pra isso. Em 2024 veio o primeiro álbum solo, também pelo Escho, que mistura folk, country, dream pop e texturas eletrônicas como se gênero fosse só uma sugestão.

E por que eu resolvi colocar ela nesse texto e no seu radar agora? Porque agora em outubro saiu o Jazz Dreams, o segundo álbum, ainda quentinho. Escrito, gravado, produzido e mixado por ela mesma. O disco junta jazz, folk rock, jangle pop e experimentação, e rendeu uma avaliação positiva da Pitchfork, que destacou a habilidade de Fine de transformar composições sofisticadas em algo com cara de despretensioso.

Repare no padrão: Smerz, Snuggle e Fine lançaram seus discos mais recentes pelo mesmo selo, o Escho, e boa parte deles passou pela mesma escola. Se isso não é ecossistema, eu não sei o que é. 

  • Days Incomplete: Essa faixa é um dos exemplos mais bonitos da capacidade de Fine de transformar incertezas em música. Com uma atmosfera melancólica, arranjos econômicos e vocais quase fantasmagóricos, ela acompanha a sensação de estar perdida e confusa! 
  • I Could: A música aposta em uma sonoridade mais envolvente e sensual, guitarras com muito efeito e vocais suaves. É uma faixa que parece acontecer entre a lembrança e o sonho, explorando desejo e saudade sem precisar entregar tudo de forma explícita. 

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Publicado por: Dais Sampaio

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