
Ed Motta acaba de lançar seu 15º álbum de estúdio. O disco reúne músicas novas, uma composição guardada desde Manual Prático, referências que vão de Steely Dan ao electro-funk dos anos 1980 e uma forma de produção que ele próprio não imaginava retomar. Começa querendo ser feliz e termina voltando para si. Como o próprio Ed resumiu: “É uma ironia da vida.”
Toc-Toc começa com “Eu Quero Ser Feliz” e termina com “Voltei pra Mim”. Quando Ed Motta definiu a ordem das músicas, não tinha como prever a carga que esses títulos ganhariam meses depois. O disco ficou pronto ainda no Carnaval e chegou às plataformas nesta sexta-feira (25).
Toc-Toc é o primeiro álbum de Ed Motta em português em 13 anos, depois de três trabalhos em inglês: Perpetual Gateways (2016), Criterion of the Senses (2018) e Behind the Tea Chronicles (2023). Em seu idioma natal, o vocabulário musical permanece com raízes no soul, R&B, harmonias densas e uma atenção quase obsessiva aos arranjos. Desta vez, porém, tudo aparece dentro de uma produção mais enxuta e eletrônica.
Depois de discos construídos com muitas camadas, músicos e horas de estúdio, Ed escolheu uma formação que chama de trio eletrônico: bateria programada, synth bass e piano, ampliados pontualmente por guitarra, sax, violão e percussão. A ideia começou a ganhar forma depois que ele ouviu o trio norte-americano Moonchild com Lalah Hathaway.
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“Eu escutei um disco do trio de Los Angeles, Moonchild, com a participação da Lalah Hathaway, a filha do Donny Hathaway. Poxa, eu ouvi isso, fiquei tão impressionado com esse disco. Aí eu falei: ‘Caramba, eu quero fazer um disco assim, em formato de trio eletrônico, bateria, baixo e piano’. A sonoridade crua e eletrônica mostrando a canção ou o tema, seja o que for, mas com esse peso que vem do soul funk, que é nada menos do que era feito nos anos 70 e 80, só que mais engordado, com mais grave.”
A bateria eletrônica chama atenção porque Ed passou anos associado à defesa de gravações orgânicas.
“Tem muito fã meu que ficou chateado, porque está catequizado no negócio do acústico e na minha militância que eu fiz pelo acústico. Aí eu apareci falando que estou ouvindo música em digital e fazendo um negócio com programação, parece uma traição. Eu falei: ‘Vou colocar bateria eletrônica nessa altura do campeonato, com 55 anos, depois de discos supercomplexos?’. Acho que remete bastante ao meu segundo disco, esse Toc-Toc. Enfim, o baixo synth… isso é uma surpresa para mim.”
Um disco feito a quatro mãos
A redução de elementos passa diretamente pela parceria com Michel Limma, que divide com Ed a produção e os arranjos de Toc-Toc.
“É mais minimalista, porque é um disco feito a quatro mãos. Sou eu com o Michel Limma, que produziu o disco junto comigo e arranjou comigo. É diferente do modus operandi desses outros discos. Esses discos têm um modus operandi hollywoodiano, de muitas horas de estúdio, muitos músicos, muitas pessoas, várias camadas. Eu adoro isso também e pretendo realizar isso outras vezes, mas eu queria fazer um disco como se fosse um trio, um trio eletrônico.”
A própria composição também mudou. Ed conta que havia muito tempo não escrevia músicas com refrões tão diretos e uma estrutura que ele identifica como mais pop.
“Eu não fazia músicas com esse poder de síntese há muito tempo, com essa pegada pop, com refrão. Há 20 anos que eu não conseguia fazer temas assim. E eu comecei a desenvolver umas quatro, cinco músicas. Tanto que o disco não é todo assim. Tem outras músicas que remetem mais ao que eu venho fazendo nesses discos em inglês, só que em português. Mas essas primeiras músicas, com essa cara electro-funk, moldaram a estética do disco.”
Há também menos espaço para solos. Ed, que costuma incorporá-los como parte importante de seus arranjos, contabiliza apenas dois momentos mais abertamente virtuosísticos no disco. “Beth”, por exemplo, traz saxofone de Marcelo Martins e uma influência que ele diz não conseguir abandonar: Steely Dan.
Ironia predestinada
A ordem das músicas acabou criando uma espécie de narrativa irônica predestinada. Toc-Toc abre com “Eu Quero Ser Feliz” e termina com “Voltei pra Mim”. A sequência poderia facilmente ser interpretada como reação aos acontecimentos que cercaram Ed nos meses anteriores ao lançamento. Só que o álbum já estava terminado antes.
“Quando eu olho o disco e vejo que o disco começa com a música ‘Eu Quero Ser Feliz’ e fecha com ‘Voltei pra Mim’, é uma ironia da vida. E tudo isso estava absolutamente escolhido. O disco estava pronto no Carnaval deste ano, tudo pronto, capa, tudo, tudo pronto.”
Cerca de um mês depois da finalização do disco, veio a notícia de uma briga em um restaurante no Rio de Janeiro, processo que hoje tramita na Justiça. Durante a repercussão do caso, vieram a público áudios gravados em 2025 nos quais Ed utiliza o termo “paraíba” de maneira pejorativa. Posteriormente, o cantor publicou um pedido de desculpas ao Nordeste e especialmente à Paraíba.
As atitudes e falas recentes foram graves e ruins o bastante para, em diferentes momentos, tirar o foco de seu trabalho musical. Isso, porém, não transforma Toc-Toc numa resposta planejada a elas. A cronologia apresentada pelo próprio músico afasta essa leitura. “Voltei pra Mim”, inclusive, é explicada por Ed muito mais pela sensação da música do que por uma experiência biográfica específica.
“Ela não tem nada a ver, os acordes não têm nada a ver. É o clima, porque é o temperamento da música. A música tem um temperamento. O temperamento dessa música é meio ‘Come Back to Me’, da Janet Jackson.”
Outra faixa atravessou um caminho bem mais longo. “Glamour Hotel”, parceria com o carioca Leoni, estava guardada havia três décadas.
“Essa música tem 30 anos. Essa música que nós fizemos era para entrar no disco Manual Prático. […] Estou com essa música guardada há muitos anos, porque não achava que ela encaixava em outros discos. Tenho outras músicas guardadas de estilos diferentes, tenho valsas guardadas, um monte de coisas guardadas.”
Outra novidade que acompanha Toc-Toc é a chegada de Ed Motta aos quadrinhos. O músico será protagonista de As Aventuras de Ed Motta: Aplausos e Enigmas, primeiro volume de uma série criada por PH Tirre e Manoel Magalhães, atualmente em pré-venda e com lançamento previsto para novembro. A história não será uma biografia: Ed empresta sua figura a uma aventura musical, detetivesca e fantástica ambientada entre Rio de Janeiro e Londres, no universo do jazz do fim dos anos 1950. A HQ segue a tradição franco-belga da Linha Clara, estética que ele acompanha desde a infância.
Música sofisticada
“Sofisticação” é uma palavra recorrente no vocabulário de Ed Motta. Aparece quando ele fala de harmonia, intérpretes, instrumentistas e gêneros que, na avaliação dele, recebem menos reconhecimento do que merecem. Perguntado sobre o que exatamente define essa sofisticação, ele evita reduzi-la a uma fórmula técnica.
“É uma junção de coisas. É uma caligrafia. É uma caligrafia que ali se nota a forma de se fazer aquela redação. Naquela caligrafia já se conta muita coisa. É um tipo de organização, é uma forma de pensar.”
A exigência usada para avaliar música alheia também aparece no próprio processo de gravação.
“Com a minha música, o chicote é alto. Com rigor, não pode sair do corte do alfaiate. O alfaiate manda experimentar dez vezes a roupa. ‘Não está faltando aqui na bainha uma coisinha?’. Quem trabalha comigo, às vezes, no final do processo, vai pegando um pouco da neurose, da perfeição. Eu acho que fica quase com pena de mim.”
Recentemente, por exemplo, uma fala colocando musicalmente um show de Belo acima de um de Jamiroquai ganhou repercussão. Na entrevista, Ed sustenta a avaliação, mas rejeita a interpretação de que considere a banda britânica ruim.
“Nada contra o Jamiroquai. Quando eu faço essas comparações, é claro que eu sou um frasista. Eu sou um frasista, sempre. Não que eu não tenha essa opinião, essa opinião eu sustento. Eu acho, sim, o show do Belo que eu assisti no Ano-Novo musicalmente mais denso, mais complexo. Não é a música que eu escuto, mas não quer dizer que é ruim ou alguma coisa assim.”
O pagode ocupa um espaço curioso nesse mapa musical. Ed lembra que já recebeu Péricles e Thiaguinho em sua casa na época do Exaltasamba e considera que boa parte da sofisticação harmônica do gênero ainda é subestimada.
“O Exaltasamba, eu sempre falei que o Exaltasamba é o Earth, Wind & Fire do samba. Quando eu gravei com Arlindo Cruz, eu fui assistir ao show depois. Eu lembro que falei com minha mulher: ‘O show do Arlindo Cruz é o Maze’. Harmonicamente, mais uma vez, o Arlindo Cruz ia à frente do que o Maze propõe, mesmo que eu tenha crescido escutando a música do Maze. Eu sei que harmonicamente acontece um monte de coisa, que é incrível, que é muito sofisticado, muito mesmo. E não tem talvez o endosso da inteligência. As pessoas precisam desse reconhecimento em vida.”
Nova York, 1992 e o sonho que tomou outro rumo
Em uma publicação recente no Instagram, Ed recuperou uma fotografia de sua primeira viagem profissional a Nova York, em 1992. No texto, falou sobre a expectativa que tinha aos vinte e poucos anos de que sua vida seguiria outro caminho e relacionou parte de sua frustração adulta à sensação de ter possuído os atributos para realizar um sonho que não aconteceu da maneira imaginada.
“Essa sensação de sonho é a insatisfação do perfeccionista, de estar sempre insatisfeito. Talvez isso alimente coisas, isso me faz chorar. Quando eu escrevi aquilo ali, eu estava chorando. Eu escrevi chorando. Meu sonho era morar em Nova York. Não nos Estados Unidos, em Nova York. E eu fiquei lá quase um ano, e aquele ano foi um dos anos mais importantes da minha vida. Eu sabia coisas dos filmes que eu vejo, os filmes preto e branco, as séries de TV, os filmes policiais, a estética toda. E a música, porque é a cidade do Steely Dan, os artistas que eu mais admiro.”
Ao finalmente morar na cidade que durante anos havia representado sua formação cultural, Ed passou a procurar justamente música brasileira. Os discos custavam caro porque eram importados. Ainda assim, ele comprava Chico Buarque, Tom Jobim, Toninho Horta, João Bosco, Edu Lobo e Hermeto Pascoal…
“Quando eu cheguei em Nova York, se tem uma coisa que não me interessava era a música norte-americana naquele momento. Eu já estava ouvindo música brasileira quando fui para lá. Já fui levando uns discos do Jobim, do Edu Lobo, do Chico, do Milton. Eu ficava em Nova York, escutando um Discman, ouvindo música brasileira e chorando, andando na Broadway, e pensava: ‘Eu não vou aguentar, até semana que vem eu quero voltar, eu quero voltar para o Brasil’. A minha música ficou mesclada com o elemento brasileiro e foi o jazz que me ensinou a amar a música do Brasil. Foi a América do Norte que me fez olhar para a música do meu próprio país.”
A polêmica do Hip Hop
Em 2024, durante uma transmissão ao vivo, Ed atacou o hip hop e chegou a associar quem ouvia o gênero à falta de inteligência. Depois pediu desculpas publicamente. A fala contrastava diretamente com uma formação musical construída em torno de referências da cultura negra dos Estados Unidos.
Ao falar sobre a declaração contra o hip hop, Ed explica que a frase surgiu durante uma live, num momento de mau humor, sem transformar esse contexto em justificativa. Ele reconhece que generalizou, que a fala atingiu pessoas e uma estética que não pretendia atacar e lembra que acompanhou de perto os primeiros anos do gênero, ouvindo nomes como Sugarhill Gang, Whodini, Kurtis Blow e Grandmaster Flash. Para ele, esse histórico torna a própria fala ainda mais contraditória.
“Quando aconteceu o negócio do hip hop, foi uma live, que a pessoa entrou e me pegou numa hora muito mal-humorada, que eu cheguei e dei uma generalizada. Só que você generaliza para uma pessoa e vai para todo mundo. Aquele jato de ira vai para um monte de gente, atinge quem você não queria e atinge até a estética que você não queria. Eu tenho exata clareza da importância do hip hop, tenho conhecimento disso. […] Eu peguei ‘Rapper’s Delight’ no colégio, com o Sugarhill Gang, e comprei os primeiros discos de Whodini, Kurtis Blow, Grandmaster Flash. Tudo isso, o começo dessa cultura toda, eu acompanhei isso.”
Quando a conversa volta ao fato de a declaração ter acontecido numa live, Ed corta a própria possibilidade de usar o formato como desculpa: “Ah não, mas foi porque foi na live, não adianta. Estava ali num contexto desagradável e enfim, é isso.”
Os cinco discos que mudaram a vida de Ed Motta
No fim da conversa, o TMDQA! propôs um desafio especialmente cruel para alguém que tem uma coleção que chegou a 30 mil discos: escolher cinco que mudaram sua vida.
“Eu vou falar cinco discos brasileiros, porque eu sempre falo de um disco norte-americano e tal, o pessoal reclama: ‘Ed é colonizado, é vira-lata’. Então eu vou falar de cinco discos brasileiros que mudaram a minha percepção de música e que eu amo.”
Os cinco foram:
Tom Jobim — Matita Perê
Edu Lobo — Missa Breve
Guinga — Delírio Carioca
Toninho Horta — Terra dos Pássaros
Milton Nascimento — Milagre dos Peixes
E uma menção honrosa a Banda Black Rio, Maria Fumaça: “depois eu não vou dormir por não ter falado de Black Rio.”
Quando a proposta foi invertida, com bom humor, e a pergunta passou a ser sobre cinco artistas que ele não suporta, Ed preferiu não montar uma lista.
“As pessoas têm essa impressão que eu tenho uma lista do que eu não gosto maior. A minha lista do que eu gosto é muito maior. […] Eu não posso destacar cinco coisas que me desagradem, porque eu não vou escutar mesmo. E aquilo não vai passar pela minha vida. Então que aquilo fique em paz. Que aquilo fique bem, numa boa e longe de mim.”
No dia 16 de outubro, Ed Motta leva ao Teatro Bradesco, em São Paulo, um show que atravessa diferentes fases da carreira, incluindo sua participação na trilha sonora do filme Tarzan, com a versão brasileira da música de Phil Collins. O repertório deve reunir músicas de Manual Prático para Festas, Bailes e Afins e também faixas de Toc-Toc.
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Publicado por: Liz Sacramento





