Levantamento do Greenpeace Brasil mostra que dezenas de candidatos com autuações do Ibama acessaram, juntos, mais de R$ 253,6 milhões em crédito rural entre 2013 e 2026.
| RESUMO – 137 candidatos de 21 partidos acumularam ao menos uma multa ambiental entre 2008 e 2026, totalizando o valor de R$ 161,5 milhões, sendo ainda ativo o montante de R$ 84,2 milhões – PL, MDB, Podemos, Novo, PSD e Republicanos concentram mais da metade dos nomes multados entre 2008 e 2026; – O crédito rural liberado para 25 candidatos foi de R$ 253,6 milhões entre 2013 e 2026. Dentre eles, 17 permanecem com multas ativas (R$ 11,3 milhões) e receberam crédito rural no valor total de R$ 165 milhões. – Em média, para cada real que esses 17 candidatos ainda devem por infração ambiental, eles receberam cerca de R$ 14,60 em crédito. |
Antes de saber o nome de um candidato, o eleitor costuma pesquisar alguns detalhes como o número na urna, o partido, talvez uma polêmica recente. Mas poucas dessas buscas chegam a um dado que deveria pesar bem mais na decisão de voto: se aquele candidato está envolvido com a destruição de florestas. E para piorar, tem muitos que, apesar de infratores, seguem recebendo crédito rural.
Um levantamento do Greenpeace Brasil a partir de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), do Ibama e do Banco Central do Brasil (BACEN) encontrou exatamente esse cruzamento.
As informações demonstram que uma pessoa candidata a cargos públicos, além de ter uma multa ambiental ativa no currículo, pode continuar recebendo financiamento pelo crédito rural, que conta com recursos e subsídios públicos, para investir em propriedades rurais.
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O retrato dos candidatos multados
Entre 2008 e 2026, 137 candidatos de 21 partidos diferentes acumularam ao menos uma multa ambiental, principalmente por infrações à flora, como desmatamento e queimadas ilegais. No total, esse histórico de multas soma R$ 161,5 milhões, e mais da metade ainda ativa, ou seja, R$ 84,2 milhões não foram pagos, cancelados, substituídos ou suspensos.
Seis partidos concentram mais da metade dos nomes multados: Partido Liberal (PL), com 20 candidatos; Movimento Democrático Brasileiro (MDB), com 15; Podemos, com 13; Novo, Partido Social Democrático (PSD) e Republicanos, com 10 candidatos cada.
Crédito rural para candidatos infratores ambientais
O levantamento também mostra como 25 candidatos com multa ambiental registrada acessaram, juntos, R$ 253,6 milhões em crédito rural entre 2013 e 2026. Olhando por partido, o PL concentra R$ 118,1 milhões desse total (46,5%), seguido do PSB com R$ 69 milhões (27,2%). Juntos, os 2 respondem por quase três quartos de todo o crédito do grupo. Um segundo pelotão traz PSDB, União Brasil, PSD e Podemos.
Um recorte menor, de 17 nomes com multas ainda ativas e não quitadas somando R$ 11,2 milhões, acessaram R$47,6 milhões em crédito rural no mesmo período.
O fato de candidatos a cargos públicos possuírem registros de infração ambiental, sobretudo multa, é recorrente no Brasil. Se incluirmos na conta todas as candidaturas entre 2012 e 2026, o total em crédito rural liberado a candidatos infratores entre 2013 e 2026 chegam ao inacreditável valor de R$ 1,37 bilhão. Os estados do Mato Grosso, Maranhão, Pará e Tocantins concentram o maior volume de crédito a infratores entre 2013 e 2026.
E, se nada for feito, continuaremos bancando a destruição ambiental e elegendo infratores.
As brechas que estão Bancando a Extinção
O total de crédito rural liberado para os 25 candidatos multados que obtiveram financiamento, R$ 253,6 milhões, é mais do que o dobro do total das multas devidas pelos 137 candidatos multados, R$ 113,2 milhões. Neste caso, existe mais dinheiro indo em direção a infratores do que dinheiro voltando aos cofres públicos por conta de infrações ambientais. Isso levanta um questionamento importante, já que o crédito rural conta com recursos e subsídios públicos: o povo brasileiro estaria, involuntariamente e inadvertidamente, pagando pela destruição, além de todo o impacto que já sofre com isso?
No Brasil, uma multa ambiental, por maior que seja, não torna uma pessoa inelegível, tampouco impede um produtor de acessar o crédito rural, e o dinheiro segue fluindo porque, pela regulamentação vigente, as restrições são limitadas.
Uma infração ambiental pode ter como penalidade a multa ou o embargo, ou ambos, mas apenas propriedades rurais com ocorrência de embargo por desmatamento são alvo de restrição ao crédito rural. Embargos por uso ilegal do fogo ainda não entram nessa restrição, e quem incendeia pode seguir pegando empréstimo normalmente, ou quem apresenta uma ficha suja de multas ambientais, como evidenciado nesse levantamento.
Regras atuais para a concessão de Crédito Rural:
- Embargo por desmatamento:
não consegue financiamento* - Embargo por uso ilegal de fogo, licenciamento, qualidade ambiental, pesca entre outros:
consegue financiamento - Ocorrência de infração ambiental, sem embargo:
consegue financiamento - Ocorrência de infração ambiental, mas em outra propriedade que não a financiada:
consegue financiamento
* A restrição inclui embargos federais e estaduais, desde que registrado na lista de embargos do Ibama
São brechas e detalhes técnicos que muitas vezes parecem um contrassenso, e são brechas como essas que permitem que o dinheiro continue chegando a infratores ambientais. O relatório Bancando a Extinção bancos e investidores como sócios no desmatamento publicado pelo Greenpeace Brasil em 2024, demanda ao BACEN e às instituições financeiras maior rigor nos critérios para a concessão de financiamentos, dentre outros aprimoramentos, recomendando a consideração de todos os tipos de infrações ambientais para impedir acesso ao crédito, em detalhes:
- ocorrência de infrações ambientais (muito mais amplo que apenas embargo);
- que se apliquem a qualquer tipo de infração (e não apenas àquelas relacionadas ao desmatamento);
- e também se apliquem ao CPF do proponente, independentemente de onde se registrou a multa ou embargo.
Fechar as lacunas nas regras do crédito rural é urgente para impedir que dinheiro público continue financiando quem já foi autuado por desrespeitar a legislação ambiental, e é ainda mais grave, neste contexto, que haja candidatos se beneficiando dessas brechas. O que vemos é um ciclo vicioso em que legisladores e executivos atuam para afrouxar e adiar regulações, reduzir a efetividade da fiscalização ambiental e desenhar licenciamentos sob medida em benefício próprio ou para a sua base eleitoral. Nas eleições de 2026, antes de votar, o eleitor precisa saber quem comete infrações e quem está usando o poder para proteger e facilitar crimes ambientais.
Cristiane Mazzetti, coordenadora de Desmatamento Zero do Greenpeace Brasil
Quem vota as regras que os protegem
Outras decisões tomadas no âmbito do Legislativo e do Executivo são propostas e votadas, entre outras, pelos mesmos partidos que concentram os nomes multados. Eles também tentam influenciar quais, como e quando as regulações do crédito rural serão aplicadas, o que acaba por beneficiar parte da própria base eleitoral dessas siglas. São políticos desses partidos que também decidem o desenho do licenciamento ambiental, o orçamento destinado à fiscalização do Ibama, dentre outras. Esses políticos legislam pelo povo ou em benefício próprio?
Compreender esse ciclo é essencial nas eleições de 2026, e o cruzamento de dados públicos por organizações da sociedade civil, como o Greenpeace Brasil, ajuda a trazer transparência e informação tão necessárias para uma democracia plena e para a defesa do meio ambiente.
Então, antes de decidir o voto, vale a pena descobrir não só quem já foi multado, mas quem terá poder para influenciar essas e outras importantes decisões.
Há algumas ferramentas que auxiliam nessa pesquisa a partir do histórico de decisões tomadas por legisladores, como Farol Verde, da Virada Parlamentar Sustentável e Monitor do Congresso, ((o))eco.
A proposta da campanha #VotaQueVale do Greenpeace Brasil é justamente conscientizar sobre como as decisões tomadas lá em Brasília impactam nossa vida cotidiana. São essas mesmas pessoas que decidem como o país deve enfrentar seus problemas.
O que observar nas candidaturas das Eleições 2026?
Antes de escolher seu voto, vale olhar para além das promessas. Pergunte:
- A candidatura defende fortalecer ou enfraquecer a fiscalização ambiental?
- Apoia recursos para prevenção e combate às queimadas?
- Como já votou quando teve mandato?
- Quais políticas públicas pretende defender?
- Quem serão seus aliados para colocar essas propostas em prática?
Medio: greenpeace.org








