Portugal poderá assumir um papel estratégico para empresas brasileiras que buscam ampliar sua presença na União Europeia, especialmente diante da aplicação do acordo comercial entre o Mercosul e o bloco europeu. A proximidade cultural e linguística entre Brasil e Portugal, somada à posição portuguesa dentro do mercado único europeu, pode transformar o país em uma plataforma de expansão para negócios brasileiros.
O novo cenário ganhou relevância com a entrada em aplicação provisória, em 1º de maio de 2026, do Acordo Provisório de Comércio entre Mercosul e União Europeia. O instrumento integra um mercado de aproximadamente 720 milhões de pessoas e um PIB combinado superior a US$ 22 trilhões, criando novas condições para o comércio entre os dois blocos.
Para o Brasil, a abertura representa uma oportunidade particularmente significativa. Segundo o governo brasileiro, a União Europeia deverá eliminar tarifas de importação para aproximadamente 95% dos bens brasileiros, correspondentes a cerca de 92% do valor das importações europeias de produtos do país. A redução tarifária será aplicada em diferentes prazos, conforme o produto e sua classificação dentro do acordo.
É nesse contexto que Portugal pode adquirir importância para empresários brasileiros. O país oferece uma vantagem que poucos mercados europeus conseguem proporcionar: a possibilidade de operar em um ambiente europeu utilizando o português como principal idioma de negócios, além de possuir ligações históricas, culturais e empresariais com o Brasil.
A estratégia, entretanto, não significa simplesmente enviar produtos brasileiros para Portugal e automaticamente distribuí-los pelo restante da Europa. Para aproveitar os benefícios do acordo Mercosul-UE, as empresas precisam cumprir as regras de origem, exigências sanitárias e técnicas, classificação tarifária e demais requisitos estabelecidos pelo acordo. O próprio Siscomex disponibiliza manuais específicos para que os exportadores verifiquem as condições aplicáveis a cada produto.
Portugal como plataforma de negócios
Para pequenas e médias empresas brasileiras, Portugal pode funcionar como um primeiro ambiente de internacionalização dentro da Europa. A familiaridade linguística facilita negociações, contratos, marketing, atendimento ao consumidor e relacionamento com parceiros locais.
A partir de Portugal, uma empresa pode buscar inserção no mercado único europeu, que permite a circulação de bens e serviços dentro do espaço comunitário sob regras comuns. Isso torna o país potencialmente interessante não apenas como destino final, mas como base operacional para empresas brasileiras que pretendem construir uma presença permanente na Europa.
O movimento também pode beneficiar empresas portuguesas. Com o acordo, companhias europeias passam a ter melhores condições de acesso aos mercados do Mercosul, enquanto empresas brasileiras encontram novas oportunidades para exportação e internacionalização. O comércio, portanto, pode criar uma via de mão dupla entre os dois lados do Atlântico.
Oportunidade vai além das grandes empresas
Um dos pontos mais importantes desse novo cenário é que a internacionalização não precisa ficar restrita às grandes multinacionais.
Empresas brasileiras de tecnologia, alimentos, serviços digitais, indústria, moda, saúde, educação, agronegócio e economia criativa podem avaliar Portugal como um mercado inicial para testar produtos, estabelecer parcerias e compreender as exigências europeias.
Entretanto, especialistas em comércio exterior recomendam que o empresário não trate Portugal simplesmente como um intermediário logístico. A vantagem real está em utilizar o país como parte de uma estratégia europeia, avaliando custos, tributação, logística, certificações, concorrência e demanda em cada mercado.
Regras de origem serão decisivas
Um dos pontos fundamentais do acordo é a comprovação da origem dos produtos. O benefício tarifário não é automático apenas porque uma mercadoria é exportada por uma empresa brasileira.
O acordo estabelece regras específicas para determinar quando um produto é considerado originário e, portanto, pode receber tratamento preferencial. Dependendo da mercadoria, podem ser exigidas mudanças de classificação tarifária ou limites para utilização de materiais não originários.
Para produtos sujeitos a cotas, existem ainda procedimentos específicos. O Brasil estabeleceu mecanismos de certificação e gestão das cotas por meio do Portal Único Siscomex, enquanto determinados produtos agrícolas e agroindustriais terão tratamentos diferenciados.
Isso significa que o empresário interessado em utilizar Portugal como porta de entrada deverá preparar sua operação antes de embarcar a mercadoria, verificando previamente se o produto está contemplado, qual tarifa será aplicada e quais documentos serão necessários.
Uma nova etapa nas relações Brasil-Europa
O acordo Mercosul-União Europeia coloca Brasil e Portugal dentro de uma transformação maior das relações comerciais entre América do Sul e Europa. A aplicação provisória já colocou em funcionamento os cronogramas de redução tarifária e as estruturas destinadas à implementação e acompanhamento do acordo.
Para o empresário brasileiro, Portugal pode representar justamente o primeiro passo de uma estratégia mais ampla: entrar em um mercado europeu próximo culturalmente, adquirir experiência com as normas da União Europeia e, posteriormente, ampliar a atuação para outros países do bloco.
A oportunidade, portanto, não está apenas em vender para Portugal. Está em pensar Portugal como uma possível ponte comercial entre o Brasil e um mercado europeu de centenas de milhões de consumidores.
Para empresas brasileiras que nunca exportaram para a Europa, o momento exige planejamento, conhecimento das regras e avaliação profissional de cada produto. Mas, com a nova realidade criada pelo acordo Mercosul-União Europeia, Portugal ganha condições para se tornar um dos pontos de apoio mais naturais para a internacionalização de negócios brasileiros no continente europeu.
Foto: Reprodução / Notícias ao Minuto
La entrada Brasil: Portugal pode ganhar força como porta de entrada para empresas brasileiras no mercado da União Europeia se publicó en Prensa Mercosur.
Publicado Por: Gilson Dantas Carmini







