Black Pantera reafirma horizontes expandidos em ‘Continental’

Black Pantera

Ao longo dos últimos anos, o Black Pantera se tornou um dos nomes mais importantes da cena rock nacional, sendo agraciado com prêmios e posições de prestígio em grandes festivais. Algumas más línguas afirmam que esse sucesso é produto de lacração, fruto de uma indústria mais interessada na importância da banda do que sua qualidade.

Entretanto, a obra do grupo de Uberaba (MG) refuta isso. Através de quatro álbuns de estúdio e um EP, o trio formado por Charles Gama (vocais, guitarra), Chaene da Gama (vocais, baixo) e Rodrigo Pancho (bateria) estabeleceu uma sonoridade bem característica além de sua veia política antirracista. Um estilo capaz de capturar a atenção do público e justificar sua fama crescente.

Continental (2026), quinto e mais novo disco de estúdio, representa uma continuação disso. Não se trata necessariamente uma evolução do seu antecessor, Perpétuo (2024), mas um prosseguimento do que foi apresentado na obra anterior.

As letras seguem como um dos grandes trunfos. Ideias complexas são expostas de um jeito claro. Ou melhor: a banda consegue ser panfletária sem parecer uma palestra.

Um dos jeitos encontrados para criar um clima de cumplicidade é o tom sarcástico de algumas composições, a exemplo de “W.P.P.”, que ironiza reclamações de jovens brancos ricos. Além disso, há constantes referências a jogos de videogame, quadrinhos ocidentais e animes. Jujutsu Kaisen aparece frequentemente em Continental, o que não é surpreendente após uma das músicas mais famosas de Perpétuo, “Mahoraga”, ser batizada em homenagem a um monstro da série.

Isso funciona especialmente dentro desse gênero em particular porque oferece algo diferente de outros artistas. Letras de thrash metal sempre foram marcadas por misantropia e niilismo. Quando abordavam política, grandes nomes do gênero seguiam por um caminho mais reacionário, porque a raiva por trás do que cantavam apenas servia de acompanhamento à hostilidade da música. O Black Pantera pega essa agressão e a transforma em ferramenta de resistência, tal qual o Rage Against the Machine fez nos anos 1990.

Continental abre com sua faixa-título, que transmite desde já os ideais do trabalho através de sua retórica sobre antirracismo e anticolonialismo aliada a um groove contagiante e devastador. As veias abertas da América Latina de Eduardo Galeano convivem com a obra do geógrafo Milton Santos, que é citado de cara:

“Somos da América do Sul
Eu sei vocês não devem nem saber
Já dizia Milton desde o nascimento
E só agora eu pude entender

Seus heróis morreram de overdose
Os meus morreram pelo corre

Esse país é um continente
Bebeu o sangue da minha gente
E acham que tamo aqui à toa”

A primeira metade de Continental é um pouco mais irregular apenas porque petardos thrash como “Serotonina” e “Negusa Nagast” dividem espaço com experimentos mais hard rock, tal qual “Hórus”, que embora tenha um vocal espetacular, soa fora de lugar em termos de estilo. O único outro momento no álbum no qual isso ocorre de maneira mais evidente é “Banzo”, uma parceria com Chico César de qualidade por si, mas estranha dentro do contexto estabelecido pelo resto das canções.

Continental captura uma banda com vontade de fazer algo além do thrash, mas ainda com o problema de tais desvios não funcionarem tão bem dentro do contexto do álbum. Quando são interlúdios em meio ao trio no seu mais impiedoso e incendiário, pecam por não caberem junto.

Mas podem ser incríveis se ouvidas em separado. E a maior parte do disco reforça a noção de que o Black Pantera não é apenas uma banda importante, mas muito boa também.

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Publicado por: Pedro Hollanda (@phollanda21)

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